As partes de 1 a 4 estão espalhadas aqui pelo blog. Só procurar por conto em gotas e elas aparecem juntas.
Parte 5
Em 24 horas a vida de Diana tinha
mudado completamente. Ela ainda achava que a qualquer momento a polícia ia
aparecer na sua porta, apesar de ter assistido todos aqueles lixos de programa
de tragédia e lido os jornais disponíveis on-line para tentar descobrir se
havia alguma suspeita. Mas, não havia muito destaque para o caso, O fato da imprensa
ter descoberto que o morto era um estuprador conhecido, foragido e com dezenas
de passagem ela polícia, reforçava o fato de ter sido alguma vingança, mas de
qualquer maneira, uma vingança justa.
E por falar em justiça, ela também
se sentia muito incomodada com a história de Bianca e com uma sensação
diferente, como se precisasse se vingar pela amiga e por todas as mulheres que
sofrem abusos a cada minuto, nesse país tão grande.
Ela precisava fazer Bianca falar
mais, mas sabia que não adiantava tentar fazer isso no trabalho, então decidiu
convidar a amiga para uma pizza no fim de semana.
Na manhã seguinte, depois do café
e das fofocas matinais, ela fez o convite, de forma até despretensiosa e Bianca
aceitou, na sexta, depois do trabalho, iriam direto para a casa de Diana para uma
sessão de comédias românticas ou alguma nova série e uns bons pedaços de pizza
com sorvete de sobremesa e o convite se estendeu, inclusive, para a noite toda.
Diana disse que ficaria feliz em não passar a noite de sexta sozinha em casa.
Na sexta, Bianca
chegou ao trabalho com sua malinha e toda animada, parecia nem lembrar da
tristeza que teve durante a conversa com Diana na terça-feira e parecia,
também, não imaginar que esse assunto voltaria nesta noite.
Diana também estava
feliz, por poder se distrair e tentar esquecer o crime que cometeu, antes que a
paranoia lhe dominasse por completo, mas também estava ansiosa para saber
alguns detalhes que precisava para continuar sua tarefa, tarefa essa que ela
nem sabia que tinha, mas da qual já não conseguia mais se livrar em seus
pensamentos.
O dia continuou sem
problemas, elas se despediram das colegas que ficaram com aquelas brincadeirinhas
idiotas, do tipo “Cuidado vocês hein, sozinhas no escurinho da sala, vendo
filme... Sei não.”
No caminho, quando passaram
pelo beco, Bianca disse:
- Foi aqui que
aquele cretino morreu.
Diana se assustou e
sem pensar disse:
- Como você sabe?!
Bianca fez uma cara
divertida e disse:
- Nossa Diana, você
é desligada mesmo, apareceu até na TV, e se não fosse isso, pela descrição do
noticiário, todo mundo do escritório sabia que era aqui. Por isso estava
preocupada no dia seguinte com seu atraso, eu sei que você passa por aqui.
Diana suspirou e
deu um sorriso bem falso.
- Verdade, eu sou
mesmo desligada, mal acompanhei esse caso.
Essa foi, sem dúvida,
uma das maiores mentiras que ela já tinha contado na vida, pois ainda passava
por lá com o coração apertado e sempre achando que o bandido, mesmo morto, ia
voltar e empurrar ela de novo.
Assim que chegaram
na casa de Diana, arrumaram as coisas e Bianca foi tomar banho, enquanto a
anfitriã ficou encarregada de pedir a pizza.
Depois de acomodas,
com a pizza quentinha nos pratos, a coca gelada no copo, a TV ligada e o
controle remoto a postos, Diana fez a pergunta que queria, de uma vez, sem nem
parar para organizar direito o pensamento.
- Bianca, você
disse que saiu desorientada da casa daquele cafajeste que te aprisionou e que
foi parar do outro lado da cidade, mas parou em um bar, você lembra o nome do
bar, o nome do bairro, alguma característica da casa do desgraçado?
Bianca parecia ter
tomado um tapa na cara tão forte que mal conseguiu reagir. Depois de alguns
segundos quase catatônica ela disse:
- Mas porque isso
aqui e agora, em um momento que parecia tão legal, por que você quer me ver
sofrer?
-Não, não, de forma
alguma, desculpe, saiu sem eu pensar, fiquei com isso na cabeça e queria saber
o quanto longe daqui era e por pura curiosidade mesmo. No serviço a nossa
conversa parece que ficou inacabada e eu acho que vai ser bom para você falar
mais sobre isso, colocar para fora. E depois, estamos só nós duas aqui pelo fim
de semana, vai ter todo tempo do mundo para falar sobre isso.
- Mas eu não quero
falar, eu quero esquecer, aliás, nem sei porque fui contar isso para você.
- Porque você
precisava colocar isso para fora, estava te fazendo mal. E você pode confiar em
mim. – Finalizou Diana.
Bianca não parecia
confortável, mas disse:
- Eu sei exatamente de onde sai e nunca mais quero nem chegar
perto. Pensei um milhão de vezes em ir à policia e contar tudo, mas tenho muito
medo dele ser preso e ser solto logo em seguida e vir atrás de mim, da minha
mãe. Pensa que eu não sofro imaginando quantas meninas e mulheres podem ter
sofrido o mesmo que eu? Mas não posso me imaginar passando por isso de novo.
Com um pouco de demora e muito sofrimento ela contou tudo,
não só onde ficava, mas os detalhes da casa, do rosto, das tatuagens, o cheiro,
da voz, tudo o que ela lembrava. E não era pouca coisa.