segunda-feira, 28 de março de 2022

Conto em Gota - Parte 5

As partes de 1 a 4 estão espalhadas aqui pelo blog. Só procurar por conto em gotas e elas aparecem juntas.

Parte 5

Em 24 horas a vida de Diana tinha mudado completamente. Ela ainda achava que a qualquer momento a polícia ia aparecer na sua porta, apesar de ter assistido todos aqueles lixos de programa de tragédia e lido os jornais disponíveis on-line para tentar descobrir se havia alguma suspeita. Mas, não havia muito destaque para o caso, O fato da imprensa ter descoberto que o morto era um estuprador conhecido, foragido e com dezenas de passagem ela polícia, reforçava o fato de ter sido alguma vingança, mas de qualquer maneira, uma vingança justa.

E por falar em justiça, ela também se sentia muito incomodada com a história de Bianca e com uma sensação diferente, como se precisasse se vingar pela amiga e por todas as mulheres que sofrem abusos a cada minuto, nesse país tão grande.

Ela precisava fazer Bianca falar mais, mas sabia que não adiantava tentar fazer isso no trabalho, então decidiu convidar a amiga para uma pizza no fim de semana.

Na manhã seguinte, depois do café e das fofocas matinais, ela fez o convite, de forma até despretensiosa e Bianca aceitou, na sexta, depois do trabalho, iriam direto para a casa de Diana para uma sessão de comédias românticas ou alguma nova série e uns bons pedaços de pizza com sorvete de sobremesa e o convite se estendeu, inclusive, para a noite toda. Diana disse que ficaria feliz em não passar a noite de sexta sozinha em casa.

Na sexta, Bianca chegou ao trabalho com sua malinha e toda animada, parecia nem lembrar da tristeza que teve durante a conversa com Diana na terça-feira e parecia, também, não imaginar que esse assunto voltaria nesta noite.

Diana também estava feliz, por poder se distrair e tentar esquecer o crime que cometeu, antes que a paranoia lhe dominasse por completo, mas também estava ansiosa para saber alguns detalhes que precisava para continuar sua tarefa, tarefa essa que ela nem sabia que tinha, mas da qual já não conseguia mais se livrar em seus pensamentos.

O dia continuou sem problemas, elas se despediram das colegas que ficaram com aquelas brincadeirinhas idiotas, do tipo “Cuidado vocês hein, sozinhas no escurinho da sala, vendo filme... Sei não.”

No caminho, quando passaram pelo beco, Bianca disse:

- Foi aqui que aquele cretino morreu.

Diana se assustou e sem pensar disse:

- Como você sabe?!

Bianca fez uma cara divertida e disse:

- Nossa Diana, você é desligada mesmo, apareceu até na TV, e se não fosse isso, pela descrição do noticiário, todo mundo do escritório sabia que era aqui. Por isso estava preocupada no dia seguinte com seu atraso, eu sei que você passa por aqui.

Diana suspirou e deu um sorriso bem falso.

- Verdade, eu sou mesmo desligada, mal acompanhei esse caso.

Essa foi, sem dúvida, uma das maiores mentiras que ela já tinha contado na vida, pois ainda passava por lá com o coração apertado e sempre achando que o bandido, mesmo morto, ia voltar e empurrar ela de novo.

Assim que chegaram na casa de Diana, arrumaram as coisas e Bianca foi tomar banho, enquanto a anfitriã ficou encarregada de pedir a pizza.

Depois de acomodas, com a pizza quentinha nos pratos, a coca gelada no copo, a TV ligada e o controle remoto a postos, Diana fez a pergunta que queria, de uma vez, sem nem parar para organizar direito o pensamento.

- Bianca, você disse que saiu desorientada da casa daquele cafajeste que te aprisionou e que foi parar do outro lado da cidade, mas parou em um bar, você lembra o nome do bar, o nome do bairro, alguma característica da casa do desgraçado?

Bianca parecia ter tomado um tapa na cara tão forte que mal conseguiu reagir. Depois de alguns segundos quase catatônica ela disse:

- Mas porque isso aqui e agora, em um momento que parecia tão legal, por que você quer me ver sofrer?

-Não, não, de forma alguma, desculpe, saiu sem eu pensar, fiquei com isso na cabeça e queria saber o quanto longe daqui era e por pura curiosidade mesmo. No serviço a nossa conversa parece que ficou inacabada e eu acho que vai ser bom para você falar mais sobre isso, colocar para fora. E depois, estamos só nós duas aqui pelo fim de semana, vai ter todo tempo do mundo para falar sobre isso.

- Mas eu não quero falar, eu quero esquecer, aliás, nem sei porque fui contar isso para você.

- Porque você precisava colocar isso para fora, estava te fazendo mal. E você pode confiar em mim. – Finalizou Diana.

Bianca não parecia confortável, mas disse:

- Eu sei exatamente de onde sai e nunca mais quero nem chegar perto. Pensei um milhão de vezes em ir à policia e contar tudo, mas tenho muito medo dele ser preso e ser solto logo em seguida e vir atrás de mim, da minha mãe. Pensa que eu não sofro imaginando quantas meninas e mulheres podem ter sofrido o mesmo que eu? Mas não posso me imaginar passando por isso de novo.

Com um pouco de demora e muito sofrimento ela contou tudo, não só onde ficava, mas os detalhes da casa, do rosto, das tatuagens, o cheiro, da voz, tudo o que ela lembrava. E não era pouca coisa.


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