segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Emergências e Desastres

Aos poucos, fomos perdendo nossa sensibilidade

Boa parte das pessoas já não conseguia ser empática com a tristeza e a dor dos outros. Aos poucos, fomos nos afundando no egoísmo, na preocupação exclusiva com o nosso bem-estar e nos esquecendo do que estava acontecendo no mundo.

Atingimos a marca de um milhão de vidas perdidas com a colaboração do coronavírus em todo o mundo e, aparentemente, aquilo já não fazia a menor diferença.

Nem parecia que havíamos vivido uma comoção e uma tristeza tão grandes quando caiu o avião que levava a equipe da Chapecoense, tampouco que havíamos sentido tanta indignação e revolta diante da tragédia da Boate Kiss, no Sul do Brasil.

E o que dizer sobre o atentado em Paris, quando muitos brasileiros trocaram suas fotos de perfil no Facebook em solidariedade às vítimas? Naquele momento, já nem parecia que éramos os mesmos.

Deixamos que visões políticas dominassem nossa razão e nos fizessem abrir mão da ciência. Ignoramos estudos para acreditar em notícias recebidas pelo WhatsApp e perdemos nossa dignidade para não dar o braço a torcer diante dos nossos próprios pontos de vista equivocados.

Não havia desastre algum que matasse tanta gente quanto o vírus ajudava a matar, dia após dia, mas parecia que já não considerávamos aquilo uma emergência.

Tomar uma cerveja com os amigos na praia?

Ah, sim. Aquilo parecia uma emergência...

Hoje, olhar para aquele período não deveria servir apenas para recordar o medo, o isolamento, as perdas ou as dificuldades que enfrentamos. Também deveria nos ajudar a reconhecer aquilo que fizemos de errado.

Em algum momento, números tão grandes deixaram de representar pessoas. A repetição diária das mortes transformou tragédias individuais em estatísticas e, enquanto muitas famílias enfrentavam perdas irreparáveis, parte da sociedade parecia mais preocupada em defender opiniões, preservar hábitos e provar que estava certa.

Talvez não soubéssemos como agir diante de algo tão desconhecido. Talvez o medo, o cansaço e a longa duração daquela crise tenham contribuído para que muitas pessoas se tornassem menos sensíveis à dor dos outros. Mas compreender o contexto não significa ignorar os erros.

Se algum dia enfrentarmos novamente uma situação semelhante, que aquela experiência não tenha sido inútil.

Que sejamos capazes de ouvir a ciência sem transformá-la em uma disputa política, de reconhecer nossas dúvidas sem substituí-las por certezas encontradas em mensagens compartilhadas e de compreender que abrir mão temporariamente de alguns desejos pode ser uma forma de proteger outras pessoas.

Acima de tudo, que não precisemos conhecer uma vítima para entender que cada vida perdida importa.

Porque uma tragédia não se torna menor quando acontece longe da nossa casa, e uma morte não perde seu significado apenas porque passou a fazer parte de uma estatística muito grande.

Durante a pandemia, aprendemos muito sobre vírus, vacinas, prevenção e saúde pública.

Mas talvez a principal lembrança que precisemos conservar seja outra:

Em momentos difíceis, cuidar apenas de nós mesmos nunca será suficiente.



segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Ano 7 - 1979

 Este ano foi, sim, muito diferente, foi o primeiro dos meus 14 anos no Colégio Assunção.

Eu já estava rorando definitivamente com meus avós paternos, minha tia e meu tio, morava nos jardins, mas não fazia parte do grupo que morava nos jardins.

Meu tio conseguiu um padrão de vida relativamente bom, mas minha vó, que é quem pagaria as minhas mensalidades, não. Na época, nem pensão ela recebia, pois meu avô ainda era vivo.

Fui bolsista durante todos os 14 anos, pagando menos da metade ma mensalidade, e apesar de saber que muito do que consegui foi devido ao estudo que tive, sei que deixei a desejar em muitos aspectos. Deveria ter aproveitado mais, estudado mais, me esforçado mais, mas, muitos fatores atrapalharam esses planos.

Me lembro, com enorme carinho, da minha primeira professora, a Tia Mariazinha, me lembro dos blocos coloridos, da sala no fim do corredor, tudo nublado, tudo em pequenos pedacinhos coloridos de memória.

Mas o que não me esqueço e não entendo de jeito nenhum foi de um fato pra lá de inusitado.

E aconteceu logo nos primeiros dias, na classe.

Do nada, absolutamente do nada levantei da minha carteira, peguei meu casaquinho de "couro" que estava pendurado na cadeira, o coloquei e comecei a cantar "Sandra Rosa Madalena" do Sidney Magal.

Não me lembro do rosto da Tia Mariazinha, nem dos meus coleguinhas, mas certamente foi de espanto...

O estranho é que a minha personalidade é por natureza tímida. Sei que no Assunção em alguns momentos fui até popular, afinal era quase patrimônio da escola e tinha gente que achava que eu nunca sairia de lá, mas apesar disso, fora dos grupos, era quieto e reservado, ou seja, não sei o que baixou em mim naquele dia.

Mas tirando a escola, na vida em casa tudo começou a virar uma rotina e a vida de uma criança em um apartamento em um prédio onde não haviam muitas outras crianças, era bem entediante e acredito que nesse período comecei a apreciar a minha solitude, a brincar sozinho, a perceber que nem sempre são necessárias outras pessoas...

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Menos palavras, maior compreensão

Muitas coisa são comunicadas com mais sucesso pelo silêncio.
Olhares, o enrubescer das faces, o som das batidas do coração.
Todas essas pequenas coisas dizem muito mais do que a boca.
Quando tentamos explicar demais. normalmente confundimos.

Nos atrapalhamos e não conseguimos fazer o anúncio.
O excesso de palavras por vezes só dificulta a comunicação.
O nervosismo é melhor aceito por atos do que pela voz rouca.
Afinal, não há palavra que ilustre melhor o que sentimos.

Enquanto palavras se perdem, minhas sensações eu gerencio.
Porque nesses anos todos, aprendi uma valiosa lição.
Muita gente usa as palavras como roupa, se não serviu, troca.
E acham que depois de muito insistirem, essas palavras engolimos.

Pobres almas, mal sabem do que essa falsa concordância é o prenúncio.
Não sabem o quanto é tola essa ambição.
Quando na verdade é só uma preguiça de lidar com cabeça oca.
E assim silenciosamente e paz e harmonia, calmamente seguimos.

ELPJ

09/20



terça-feira, 8 de setembro de 2020

Habilidades e Inabilidades

Quando alguém tem muita facilidade para realizar uma tarefa ou atividade, costumamos dizer que essa pessoa nasceu com esse dom. Não me sinto capaz de discordar dessa afirmação, mas também não me permito ignorar o esforço, o treinamento, o estudo e a dedicação que ela investiu durante muito tempo para alcançar o status de especialista, craque, gênio ou qualquer outro título que costume receber.

Todos nós temos condições de aprender aquilo que desejamos, mas nem todos conseguiremos nos destacar no que tentamos aprender. Em algumas áreas possuímos maior habilidade; em outras, somos naturalmente menos aptos. Da mesma forma que encontraremos pessoas com mais facilidade do que nós em determinadas atividades, também haverá aquelas que terão dificuldade justamente naquilo em que nos saímos bem.

A grande maioria das pessoas não é excepcional em nenhuma atividade, assim como não existe ninguém completamente inapto para tudo. Cada pessoa possui suas habilidades e suas limitações. Um grande matemático pode encontrar enorme dificuldade nas relações pessoais. Da mesma forma, alguém com pouca afinidade pelos números pode demonstrar grande habilidade em atividades motoras, artísticas ou em tantas outras áreas.

O importante é descobrir seus pontos fortes e buscar aprimorá-los cada vez mais, procurando se destacar naquilo que faz bem, mas sem jamais esquecer suas vulnerabilidades e adotando estratégias para se proteger sempre que possível.

Portanto, estude, pratique esportes, arrisque-se em atividades manuais e não se preocupe com as críticas, nem se perca nos elogios. Sempre haverá espaço para aprender mais e evoluir. Da mesma forma, qualquer habilidade pode diminuir com o tempo se deixarmos de exercitá-la, de treiná-la e de buscar um aperfeiçoamento constante.

Depenado

A vida ainda não achou um jeito de sair daqui. O suor brota da minha testa. Escorre pelos meus olhos e cai. Onde está minha família? O exérc...