segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Pelas Redondezas


Aqui por perto, ou perto de algum lugar.
Até porque não sei se foi sonho, ou se é a realidade.
Não sei se me lembro, ou se imaginei, ou criei.
Só sei que ela apareceu como um fantasma, no meio de toda aquela neblina com a neve ao fundo, deixando um contraste quase invisível no branco sobre o branco.

A luz da Lua ofusca ainda mais a minha visão.
Apenas os anjos, lá de cima, conseguem enxergar melhor se estou louco ou devo ficar assustado.
Me sinto leve, como se pudesse flutuar, dou uns passos sentindo a chuva e volto.
Para onde? Eu não sei.

Ouço a voz fantasmagórica dizer que estava morrendo.
Olho para os lados, não vejo nada, fecho os olhos, escuto alguma coisa.
Coloco o ouvido na porta feita pela neblina que nos separa e escuto ela chorar.
Porque ela está chorando? Eu não sei.

Pelas redondezas só existem pessoas que se acham corretas demais.
Mas muitas coisas estranhas irradiam daqui.
Ela pode ter descido do céu, ou subido do inferno, com sua maleta pesada e invisível.
Estava querendo encontrar um rapaz, que pelas características poderia ser o Elvis, aquele que não morreu.

O Dia surge, as nuvens vão embora e as montanhas de neve derreteram e viraram mar.
E eu a vejo, no horizonte, caminhando em um arame, com os braços abertos, bem na linha do horizonte, não sei se no céu ou no mar.
Ela vem se aproximando, ou eu vou me aproximando do horizonte, não sei.
Quando percebo estou na porta da minha casa e ela vem voando com seu carro. Estaciona. Tira sua roupa de palhaço.

Ela diz que entende porque Jesus não quis mais voltar, ou foi eu que disse?
Acho que estou sendo um pouco mal interpretado, vocês estão me olhando de um jeito estranho.
Ela me diz que tem problemas para se comportar quando está nervosa. Mas só eu escuto. Estou nervoso.
Vou me calar, tapo os ouvidos, eu não posso ver nada. Aqui. Por aqui. Pelas redondezas.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

As Idades e o Tempo


O tempo é o mesmo para todos, mas o que cada um faz com ele é muito diferente.

Algumas pessoas vivem, outras passam pela vida; umas se arriscam, outras se protegem. Há os velhos que se sentem novos e os novos que agem como velhos.

A idade é um fator limitante para muitas coisas, mas a forma de viver o tempo limita ainda mais.

A cada dia, é mais comum vermos pessoas com mais de 70 anos correndo nas ruas, até mesmo terminando maratonas, e, ao mesmo tempo, jovens com pouco mais de 20 anos, obesos, em um quarto escuro, com os olhos vidrados no computador ou no videogame.

Há aqueles que usam o tempo para fazer histórias e outros que gostam de ouvir as histórias contadas. E existem aqueles que gostariam de viver mais, mas o tempo é curto demais.

Vemos jovens que querem mais tempo, mas perdem a vida na ânsia de viver. Se descuidam, perdem a cabeça, perdem o controle da mente e a noção do que é certo e errado. E o pior: por vezes, levam consigo quem apenas estava vivendo tranquilamente o seu dia.

Não há regra, não há certo nem errado. O que há é o tempo, e esse passa igual para todo mundo. Mas existe o bom senso e, claro, a falta dele.

Existem aqueles que não puderam aproveitar a adolescência ou a infância e, depois de chegarem a uma idade em que o comum é viver a fase adulta, se sentem compelidos a voltar no tempo para tentar fazer o que deixaram para trás...

Mas o tempo é implacável. Ele passa e, mesmo com todo o cuidado, o corpo não é mais o mesmo, a saúde precisa de mais cuidados e as personalidades são diferentes. As atitudes são diferentes, e o que esperar do futuro se torna diferente, pois, independentemente do tempo, existe uma idade em que sabemos que cada dia é menos um, e não mais um, como foi antigamente.

Viva, aproveite, faça o que for possível com cuidado e depois usufrua do seu tempo com a melhor qualidade possível, sem se preocupar com o tempo que passou nem com o tempo que falta, e sim com a felicidade que você tem ao usar o seu tempo do seu próprio jeito!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Lágrimas de Crocodilo

Por vezes, nem as melhores atrizes ou os melhores atores conseguem chorar tão bem quanto uma pessoa comum que precisa das próprias lágrimas para enganar alguém.

Normalmente, nos comovemos muito facilmente com o choro do outro. Basta ter um pouquinho de empatia para correr o risco de cair no conto das lágrimas de crocodilo.

E, na enorme maioria das vezes, essas lágrimas são utilizadas para tentar fazer com que a outra pessoa se sinta culpada por algo que não fez, tenha piedade e entregue algo que não deveria, ou acredite em sentimentos que não existem e nunca existiram.

Mas como saber? Como julgar as lágrimas dos outros? E como se tornar insensível a ponto de ver alguém chorar e não sentir nada?

Isso realmente não é bom nem saudável. Devemos lembrar que a empatia é o que nos aproxima e nos faz mais fortes em sociedade, em comunidade. Ignorar a dor do outro pode ser ignorar a própria dor no futuro.

O que todos precisamos é de mais autoconhecimento, amor próprio e serenidade.

Se nos conhecemos suficientemente bem, os riscos de sermos passados para trás emocionalmente por pessoas que querem apenas nos usar são menores. Quando sabemos bem o que fizemos, quais são as nossas responsabilidades e como agimos, é quase impossível alguém conseguir nos atribuir uma culpa que não devemos carregar. Mais do que isso, conseguimos desmascarar e nos afastar de quem chora sem nenhuma razão além de querer nos fazer mal.

Se temos o nosso amor próprio em dia, não precisamos entregar o que não temos, ou mais do que temos, para quem tenta chantagear e atacar o nosso lado emocional com falsas lágrimas. Se há uma condição, cobrança ou exigência material ou emocional, já podemos perceber que aquela pessoa não quer apenas o nosso bem, mas tudo o que temos.

E, por fim, serenidade para não deixar a impulsividade agir e, assim, evitar a decepção e a frustração. Respirar, pensar, responder depois. Uma das armas de quem chora é deixar o outro vulnerável e fazê-lo agir naquele momento para curar a dor de quem chora, resolver seus problemas e lhe trazer conforto. Se você diz que precisa de tempo para pensar, a mudança é drástica e dramática. Então, fica mais fácil perceber que as intenções eram diferentes.

É isso, pessoal. Acolha quem precisa, dê colo a quem não tem condições de ficar sozinho, mas não descuide, porque, infelizmente, de santo o inferno está cheio!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Ilusão Afetiva


Muitas são as expressões novas que os mais velhos têm dificuldade de compreender. Resta-nos recorrer aos mais jovens, de preferência aos menos propensos à indelicadeza, para que tentem explicar o que significam. Os nem tão antigos assim, como eu, recorrem ao Google para decifrar algumas coisas que começam a aparecer com frequência na tela do computador e do celular.

Outro dia fui pesquisar o significado da expressão “O golpe tá aí, cai quem quer”.

Se entendi corretamente, ela costuma ser usada quando os sinais de um engano, uma mentira ou uma armadilha já estão visíveis, mas alguém insiste em ignorá-los. No campo afetivo, pode representar a pessoa que demonstra claramente não querer compromisso, mas mantém o outro por perto enquanto isso lhe for conveniente.

Isso me fez pensar no que chamarei aqui de ilusão afetiva.

A ilusão afetiva surge quando o desejo de ser amado se torna maior do que a disposição para enxergar o relacionamento como ele realmente é.

Reduzir essa experiência à falta de amor próprio seria injusto. Ela também pode envolver carência, medo da solidão, idealização e a esperança de que o outro mudará quando perceber o quanto é amado.

Alguém que, mesmo sabendo não ser a única opção, abre-se para a tentativa de modificar a personalidade de uma pessoa que não deseja nada além de passar o tempo, aumentar sua lista de conquistas ou alimentar o próprio ego. Enquanto uma fortalece sua autoestima, a outra vê a sua diminuir a cada nova concessão.

O problema começa quando a esperança precisa negar aquilo que a realidade já mostrou.

Existe ainda a necessidade que algumas pessoas têm de se sentirem queridas, de permanecerem em círculos que não combinam com sua realidade e de fazerem parte de grupos que pouco acrescentam, apenas para não enfrentarem a sensação de vazio ou solidão.

Precisamos de mais afeto e menos ilusão, mais amor próprio e menos medo da solidão, mais aceitação e menos autoengano, mais honestidade e menos exposição.

Mas, como digo normalmente, isso é papo de velho, de quem ainda se preocupa com algumas coisas que hoje parecem estar muito longe de existir.

Afinal, dizem que só cai no golpe quem quer.

Na vida afetiva, porém, muitas vezes cai quem deseja tanto ser amado que aceita chamar de amor aquilo que apenas alimenta sua esperança.

Boa semana!

Depenado

A vida ainda não achou um jeito de sair daqui. O suor brota da minha testa. Escorre pelos meus olhos e cai. Onde está minha família? O exérc...