segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Indígenas

Apenas eles moravam por aqui quando as primeiras escunas chegaram.

E não se achavam donos da terra, e sim parte dela. Viviam em harmonia com a natureza, dela extraíam apenas aquilo de que precisavam e a ela devolviam tudo o que não lhes pertencia.

Pela essência humana, havia entre eles líderes, aqueles que eram mais respeitados e seguidos, mas, ainda assim, mesmo que houvesse disputas por terras e mortes, não era nada comparado ao que vemos entre os "caras-pálidas".

E hoje ouvimos falar dos poucos indígenas que ainda permanecem na pouca mata que nos sobra e, aos poucos, vão sendo dizimados, sem piedade, pela ganância dos "homens brancos", pela mania de colocar o dinheiro acima de tudo, passando por cima das leis, já tão frágeis, que tentam, em vão, conter as queimadas e o desmatamento.

Nossos netos vão pagar por isso, vivendo em um mundo cada vez mais cinza, mais desigual e, certamente, alguns dos nossos bisnetos nem saberão quem foram os indígenas.

Pobres indígenas, que, com sua inocência e admiração, não usaram da violência para expulsar os invasores de suas terras. Foram enganados, assassinados e hoje vivem escondidos, entregues à própria sorte em um país onde são vistos como dispensáveis. Até mesmo animais domésticos têm mais proteção e mais voz do que os indígenas, e eram eles que deveriam nos ensinar como juntar a evolução à humanidade, a crescente inteligência à vida natural, o progresso à coexistência. Mas somos atrasados demais para conseguir viver assim.

Por um tempo, tive certa pena dos indígenas. Hoje, por mais triste que seja vê-los desaparecer, tenho mais pena do autoproclamado "homem racional", que, na verdade, não passa de uma criança mimada que não cuida de nada do que tem...


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Ano 6 - 1978

Á partir deste ano, até os meados dos anos 80, minhas lembranças são poucas e como demorei demais para pensar em descobrir minha infância, pois duas das minhas três mães foram embora e nesse período eu convivia muito mais com as duas do que com a minha Mãe mesmo, o que dificulta, para ela também, lembrar muitas coisas sobre o período.

O que posso escrever sobre esse período é que meu Avô me levava aos domingos para o Parque do Trianon e eu tenho na lembrança, mesmo que esmaecida pelo tempo, ele me segurando pelas mãos e eu caminhando no "degrau" da 9 de Julho quando tem a subida para o túnel. São poucas, infelizmente, as minhas memórias com ele, mas é interessante o amor que eu guardo, como se ele realmente fosse, e foi, extremamente importante na minha vida. Ele também me levava em alguns fins de semana para a casa da minha mãe e buscava meu irmão para ir no parque comigo.

Mesmo sem voltar para a casa da minha Mãe, ela ia todos os dias para me ver na hora do lanche. O Eldorado, onde hoje é Carrefour, na Pamplona era perto de onde eu estava morando, mas ainda assim era uma caminhada de pelo menos 15 minutos para ir e 15 minutos para voltar. Ou seja, o lanche mesmo era me ver.

Provavelmente esse foi o momento em que a minha personalidade foi se moldando para a forma que é até hoje. Introspectivo, solitário, pois não tinha amigos e nem podia ter, porque as regras eram rígidas. Só podia brincar no prédio. Sair, só para ir no boteco que ficava ao lado do prédio para comprar cigarro.

Brincava sozinho, com poucos brinquedos e bonecos, narrava jogos imaginários de futebol e nem me lembro de sequer ver televisão.

Esse período eu fiquei praticamente, senão todo, o ano sem ver meu Pai, pois ele já tinha de certa forma assumido a amante como mulher, apesar de nunca ter se separado na minha Mãe.

Ao menos no ano seguinte veio o início do colégio. Os intermináveis anos no adorável Assunção...




segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Versos Inversos

 É interessante como pessoas tentam viver a nossa vida.
Querendo decidir o que vamos fazer.
Sem perguntar se ou como vamos querer.
E se negamos suas vontades, nos julgam com sua empatia perdida.

Acham-se no direito de enxergar em nós algum defeito.
Nos atacam, achando que assim mudaremos de ideia.
Dizendo querer ajudar, tentam tirar das nossas mãos a rédea.
Como se escolher o que julgamos bom para nós, não fosse nosso direito.

Pobres diabos, que se enganam e se perdem em suas tolas palavras.
Mal conseguem dar conta de seus próprios dias.
Que dirá dar conta daqueles que nem são suas crias.
Procurem, sim, um túmulo para colocar nas terras que cavas.

E no máximo regojize-se com as lágrimas dos desavisados.
Ou daqueles que tentavam, em vão avisar.
Mas não conte com as daqueles que  tentastes acusar.
Pois estes tu nunca escutou, ou fingiu que eram mudos...

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Me Diga com Quem Andas...

Há uma expressão antiga que diz: "Diga-me com quem andas e direi quem tu és".

Mas nem sempre isso é verdade. Além disso, podemos criar muitas variações para essa frase.

Com as redes sociais e o ódio que se espalha por elas, poderíamos dizer: "Diga-me quem segues e direi quem és".

Mas não podemos generalizar, porque sabemos que muitas pessoas são influenciáveis e acabam agindo de forma completamente diferente quando estão dentro de um grupo, ou de uma multidão, do que quando estão sozinhas.

Surge uma coragem maior do que a habitual, talvez criada pela certeza de estar protegido ou escondido entre outras pessoas. Ou, até mesmo, alguém que se sente deslocado, já prevendo o arrependimento, mas que, para parecer descolado ou fazer parte de um grupo, acaba se juntando a pessoas que nada têm a ver com ele.

Digamos que estas sejam as exceções à regra, pessoas que acabam no mesmo barco daqueles que pensam de maneira semelhante, agem da mesma forma e, principalmente, rejeitam as diferenças e não têm capacidade para respeitar opiniões divergentes.

Fanatismo e radicalização imperam entre jovens e adultos, que lutam para conquistar mais seguidores, a fim de monopolizar pensamentos, promover desigualdades e transformar a democracia em uma guerra permanente.

Isso não é novo. Não começou agora. Aliás, talvez tenha começado assim que a racionalidade floresceu no ser humano. A disputa pelo poder, pela crença considerada verdadeira, pela razão absoluta.

Pobres tolos, que não conseguem enxergar um palmo além dos próprios olhos cegos. Não conseguem compreender a beleza e a vastidão da mente humana, das diferentes personalidades e da liberdade de escolha. Em vez disso, utilizam da pior maneira possível aquilo que chamam de liberdade de expressão.

No dia em que a humanidade compreender suas próprias diferenças e aceitar o óbvio, que somos todos diferentes, talvez, quem sabe, não precisemos mais saber com quem alguém anda para dizer quem ele é.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Aplicativos e os empreendedores

Antigamente, o termo empreendedor era utilizado para falar de pessoas que arriscavam seu dinheiro em um novo negócio, ou de grupos que se reuniam em torno de novas ideias para se tornarem donos de seus próprios negócios.

Hoje em dia, criaram uma nova definição, ou ao menos um novo grupo de empreendedores. Mas estes são empreendedores por falta de trabalho, de melhores condições, de educação e de oportunidades.

Por não terem mais expectativa, acabam trabalhando para os verdadeiros donos de uma ideia espetacular, que os remunera muito pouco, não os tem sob contrato e lucra muito mais do que aqueles que realmente executam o trabalho.

Nesta nova classe estão os entregadores de aplicativos, que usam seu bem particular, seja moto, bicicleta ou qualquer outro veículo, para prestar um serviço para uma empresa terceira, que é quem recebe e repassa um pequeno valor ao "empreendedor".

E tornou-se uma ideia tão boa que demorou bastante tempo para que motoristas e entregadores percebessem que o custo do equipamento, a falta de segurança e a ausência de suporte jurídico acabavam criando uma ilusão de ganho que, na verdade, mal existe.

Não há horário de trabalho, mas não pelo lado positivo, de trabalhar apenas quando quer e precisa, e sim pelo lado desumano de trabalhar 12 ou 14 horas por dia para conseguir, ao final do mês, o dinheiro necessário para pagar todas as contas e ainda rezar para não ter despesas com seu ganha-pão. E, se não trabalharem assim, perdem prioridades e são suspensos, sim, suspensos, por uma empresa que sequer oferece um mísero seguro ou plano de saúde.

Em suma, a situação global tornou-se insustentável a ponto de as pessoas se colocarem em situações de risco físico e emocional, exporem seus bens, muitas vezes sem seguro ou até mesmo sem terem quitado o veículo, e, em troca, receberem alguns trocados, enquanto os desenvolvedores das ideias vivem em suas bolhas de luxo.

Realmente, empreender hoje em dia ficou diferente. Não é mais coisa de quem tem dinheiro e coragem, e sim de quem não tem nada além de medo.

Depenado

A vida ainda não achou um jeito de sair daqui. O suor brota da minha testa. Escorre pelos meus olhos e cai. Onde está minha família? O exérc...