Aos poucos, fomos perdendo nossa sensibilidade
Boa parte das pessoas já não conseguia ser empática com a tristeza e a dor dos outros. Aos poucos, fomos nos afundando no egoísmo, na preocupação exclusiva com o nosso bem-estar e nos esquecendo do que estava acontecendo no mundo.
Atingimos a marca de um milhão de vidas perdidas com a colaboração do coronavírus em todo o mundo e, aparentemente, aquilo já não fazia a menor diferença.
Nem parecia que havíamos vivido uma comoção e uma tristeza tão grandes quando caiu o avião que levava a equipe da Chapecoense, tampouco que havíamos sentido tanta indignação e revolta diante da tragédia da Boate Kiss, no Sul do Brasil.
E o que dizer sobre o atentado em Paris, quando muitos brasileiros trocaram suas fotos de perfil no Facebook em solidariedade às vítimas? Naquele momento, já nem parecia que éramos os mesmos.
Deixamos que visões políticas dominassem nossa razão e nos fizessem abrir mão da ciência. Ignoramos estudos para acreditar em notícias recebidas pelo WhatsApp e perdemos nossa dignidade para não dar o braço a torcer diante dos nossos próprios pontos de vista equivocados.
Não havia desastre algum que matasse tanta gente quanto o vírus ajudava a matar, dia após dia, mas parecia que já não considerávamos aquilo uma emergência.
Tomar uma cerveja com os amigos na praia?
Ah, sim. Aquilo parecia uma emergência...
Hoje, olhar para aquele período não deveria servir apenas para recordar o medo, o isolamento, as perdas ou as dificuldades que enfrentamos. Também deveria nos ajudar a reconhecer aquilo que fizemos de errado.
Em algum momento, números tão grandes deixaram de representar pessoas. A repetição diária das mortes transformou tragédias individuais em estatísticas e, enquanto muitas famílias enfrentavam perdas irreparáveis, parte da sociedade parecia mais preocupada em defender opiniões, preservar hábitos e provar que estava certa.
Talvez não soubéssemos como agir diante de algo tão desconhecido. Talvez o medo, o cansaço e a longa duração daquela crise tenham contribuído para que muitas pessoas se tornassem menos sensíveis à dor dos outros. Mas compreender o contexto não significa ignorar os erros.
Se algum dia enfrentarmos novamente uma situação semelhante, que aquela experiência não tenha sido inútil.
Que sejamos capazes de ouvir a ciência sem transformá-la em uma disputa política, de reconhecer nossas dúvidas sem substituí-las por certezas encontradas em mensagens compartilhadas e de compreender que abrir mão temporariamente de alguns desejos pode ser uma forma de proteger outras pessoas.
Acima de tudo, que não precisemos conhecer uma vítima para entender que cada vida perdida importa.
Porque uma tragédia não se torna menor quando acontece longe da nossa casa, e uma morte não perde seu significado apenas porque passou a fazer parte de uma estatística muito grande.
Durante a pandemia, aprendemos muito sobre vírus, vacinas, prevenção e saúde pública.
Mas talvez a principal lembrança que precisemos conservar seja outra:
Em momentos difíceis, cuidar apenas de nós mesmos nunca será suficiente.
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