Vivemos tempos curiosos. Em pleno século XXI, com acesso quase ilimitado à informação, cresce o número de pessoas que desacreditam daqueles que passaram anos estudando, pesquisando e se dedicando ao conhecimento. Surge, então, a pergunta que inquieta tantos profissionais sérios: por que os ignorantes duvidam dos especialistas?
A resposta não é simples, mas começa por um mecanismo muito humano: a necessidade de se sentir no controle. O conhecimento profundo, por vezes complexo, desafia a simplicidade confortável das certezas absolutas. E, para quem desconhece o caminho do estudo, admitir a própria ignorância pode ser um golpe duro para o ego.
A ignorância, aqui, não é um insulto, mas a constatação da ausência de conhecimento. O problema surge quando essa ignorância se torna ativa, arrogante e resistente ao aprendizado. Quando alguém acredita saber mais que médicos, cientistas, professores ou psicólogos, mesmo sem formação na área, estamos diante de um fenômeno conhecido na psicologia como efeito Dunning-Kruger. Em resumo: quem sabe pouco, não sabe o quanto não sabe, e por isso se sente seguro em suas opiniões superficiais.
Duvidar dos especialistas pode ser também uma forma de reafirmar uma identidade, um pertencimento a determinados grupos sociais ou ideológicos. É mais fácil rejeitar o conhecimento do que reconhecer que se está mal informado. Além disso, muitos têm dificuldade em lidar com a frustração que o saber impõe. A ciência, por exemplo, não oferece respostas prontas ou confortáveis, mas sim probabilidades, revisões e humildade diante do desconhecido. Para quem busca verdades absolutas, isso soa como fraqueza.
Do ponto de vista psicológico, rejeitar o conhecimento técnico pode ser uma defesa. Um mecanismo para não se sentir inferior ou impotente diante da autoridade simbólica que o especialista representa. É mais fácil desacreditar o outro do que lidar com a sensação de inadequação diante do saber alheio.
Mas há algo ainda mais delicado: a ignorância não é apenas ausência de saber, é, muitas vezes, fruto de desinformação. E a desinformação se espalha rápido, apelando para emoções, medos e certezas simplistas. Enquanto o conhecimento exige reflexão, a mentira exige apenas aceitação.
Por tudo isso, o papel dos especialistas não deve ser o de impor verdades, mas de manter a escuta aberta, o diálogo respeitoso e a paciência ativa. A ciência não precisa gritar. Precisa persistir. E nós, como sociedade, precisamos valorizar o conhecimento, porque é ele que sustenta qualquer esperança de avanço, saúde e equilíbrio.
Duvidar é saudável. Rejeitar por ignorância, não.
