Uma das razões que mais encarecem os produtos importados ou fabricados por multinacionais no Brasil é o chamado "Custo Brasil". Esse termo continua sendo usado para descrever um conjunto de obstáculos que vão muito além da carga tributária. Envolve também burocracia excessiva, infraestrutura deficiente, insegurança jurídica e alta complexidade nas leis trabalhistas e fiscais.
Com frequência vemos comparações de preços entre o Brasil e outros países. Desde veículos até panetones, temos a sensação de pagar muito mais por quase tudo. E, infelizmente, essa percepção é verdadeira.
Mas por que isso acontece?
A resposta envolve dois fatores principais: a desvalorização do real e a forma como os impostos são cobrados no país. O câmbio impacta diretamente o custo dos produtos importados, e o real, nos últimos anos, tem oscilado bastante, chegando a patamares entre R$ 4,50 e R$ 5,50 por dólar, dependendo do cenário político e econômico.
Além disso, o Brasil segue tributando muito o consumo e pouco a renda e o patrimônio. Isso penaliza principalmente as camadas mais pobres da população. É verdade que o Imposto de Renda no Brasil ainda é mais baixo que em muitos países desenvolvidos. No entanto, isso não significa que pagamos menos impostos. Pagamos muito, mas em áreas que pesam diretamente no bolso do consumidor comum.
Vamos a um exemplo. Um carro vendido nos Estados Unidos por 20 mil dólares, com o câmbio médio de 5 reais, custa cerca de 100 mil reais. Supondo que o custo real para a montadora seja de 15 mil dólares, ou 75 mil reais, ainda precisamos considerar os tributos aplicados aqui: ICMS, IPI, PIS, COFINS, além dos encargos trabalhistas e os impostos sobre o lucro, como IRPJ e CSLL.
Embora os percentuais variem dependendo do estado, do tipo de produto e do regime tributário da empresa, é comum que a carga total ultrapasse 30% do valor final. E isso sem contar os custos indiretos para manter o negócio funcionando. Energia, logística, aluguel, tecnologia, segurança e pessoal impactam diretamente a operação.
Assim, quando um carro chega às lojas por 120 mil reais, boa parte desse valor não representa lucro da montadora ou da revendedora, mas sim o reflexo de um sistema caro, burocrático e, muitas vezes, ineficiente.
É verdade que existem distorções. Algumas empresas conseguem margens de lucro elevadas ou contam com benefícios fiscais generosos. Mas para a maioria dos empreendedores, cumprir todas as obrigações exigidas pelo governo é uma tarefa quase impossível. Isso gera desigualdade até mesmo dentro do setor produtivo.
A boa notícia é que a Reforma Tributária aprovada em 2023 promete mudanças importantes. A proposta busca simplificar o sistema, unificar tributos e reduzir distorções. A má notícia é que sua implementação será lenta, gradual e ainda cercada de incertezas. Levará anos até que seus efeitos sejam sentidos no bolso do consumidor.
Enquanto isso, seguimos presos a um sistema caro e pouco eficiente. Precisamos de representantes políticos mais comprometidos, mas também de uma nova cultura administrativa. Um novo jeito de pensar o país, onde o interesse público esteja acima dos interesses particulares.
Talvez não vejamos as transformações mais profundas ainda em nossa geração. Mas se começarmos agora, quem sabe nossos bisnetos possam viver em um Brasil mais justo, com produtos mais acessíveis e um governo que devolva em serviços aquilo que arrecada em impostos.