segunda-feira, 29 de abril de 2019

Lucro em R$, Investimento em U$$

Uma das razões que mais encarecem os produtos importados ou fabricados por multinacionais no Brasil é o chamado "Custo Brasil". Esse termo continua sendo usado para descrever um conjunto de obstáculos que vão muito além da carga tributária. Envolve também burocracia excessiva, infraestrutura deficiente, insegurança jurídica e alta complexidade nas leis trabalhistas e fiscais.

Com frequência vemos comparações de preços entre o Brasil e outros países. Desde veículos até panetones, temos a sensação de pagar muito mais por quase tudo. E, infelizmente, essa percepção é verdadeira.

Mas por que isso acontece?

A resposta envolve dois fatores principais: a desvalorização do real e a forma como os impostos são cobrados no país. O câmbio impacta diretamente o custo dos produtos importados, e o real, nos últimos anos, tem oscilado bastante, chegando a patamares entre R$ 4,50 e R$ 5,50 por dólar, dependendo do cenário político e econômico.

Além disso, o Brasil segue tributando muito o consumo e pouco a renda e o patrimônio. Isso penaliza principalmente as camadas mais pobres da população. É verdade que o Imposto de Renda no Brasil ainda é mais baixo que em muitos países desenvolvidos. No entanto, isso não significa que pagamos menos impostos. Pagamos muito, mas em áreas que pesam diretamente no bolso do consumidor comum.

Vamos a um exemplo. Um carro vendido nos Estados Unidos por 20 mil dólares, com o câmbio médio de 5 reais, custa cerca de 100 mil reais. Supondo que o custo real para a montadora seja de 15 mil dólares, ou 75 mil reais, ainda precisamos considerar os tributos aplicados aqui: ICMS, IPI, PIS, COFINS, além dos encargos trabalhistas e os impostos sobre o lucro, como IRPJ e CSLL.

Embora os percentuais variem dependendo do estado, do tipo de produto e do regime tributário da empresa, é comum que a carga total ultrapasse 30% do valor final. E isso sem contar os custos indiretos para manter o negócio funcionando. Energia, logística, aluguel, tecnologia, segurança e pessoal impactam diretamente a operação.

Assim, quando um carro chega às lojas por 120 mil reais, boa parte desse valor não representa lucro da montadora ou da revendedora, mas sim o reflexo de um sistema caro, burocrático e, muitas vezes, ineficiente.

É verdade que existem distorções. Algumas empresas conseguem margens de lucro elevadas ou contam com benefícios fiscais generosos. Mas para a maioria dos empreendedores, cumprir todas as obrigações exigidas pelo governo é uma tarefa quase impossível. Isso gera desigualdade até mesmo dentro do setor produtivo.

A boa notícia é que a Reforma Tributária aprovada em 2023 promete mudanças importantes. A proposta busca simplificar o sistema, unificar tributos e reduzir distorções. A má notícia é que sua implementação será lenta, gradual e ainda cercada de incertezas. Levará anos até que seus efeitos sejam sentidos no bolso do consumidor.

Enquanto isso, seguimos presos a um sistema caro e pouco eficiente. Precisamos de representantes políticos mais comprometidos, mas também de uma nova cultura administrativa. Um novo jeito de pensar o país, onde o interesse público esteja acima dos interesses particulares.

Talvez não vejamos as transformações mais profundas ainda em nossa geração. Mas se começarmos agora, quem sabe nossos bisnetos possam viver em um Brasil mais justo, com produtos mais acessíveis e um governo que devolva em serviços aquilo que arrecada em impostos.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Escolhas


Há semanas, escrevi sobre as fotos nas prateleiras e sobre como as pessoas são escolhidas para encontros através delas.

Seria pura hipocrisia dizer que a aparência não é o fator mais importante nessa escolha inicial, o que, por si só, já é algo bastante preocupante.

Mas como saber se a descrição que a pessoa faz de si mesma é real, se, em muitos casos, nem mesmo as fotos o são? Com tantos programas e aplicativos de edição, é fácil transformar uma imagem em algo que foge completamente da realidade.

A nossa vida é feita de escolhas. E escolher uma foto nada mais é do que uma pequena parte do que precisamos assumir ao longo dos nossos dias.

Desde que se tomem as devidas precauções para que a escolha pela imagem não traga consequências mais sérias, o mais importante é que se arque com os efeitos dessa decisão. E se não der certo, se não for aquilo que se imaginava, simplesmente deixe que a busca recomece.

É preciso ter essa consciência em tudo na vida. Se preferimos a balada de sexta em vez do cinema, nunca saberemos como foi o filme. E, se optarmos pelo cinema, talvez deixemos de dançar aquela música que o DJ tocaria como se estivesse lendo o nosso pensamento.

O arrependimento, por vezes, é inevitável. Mas é melhor se arrepender por ter feito algo que se desejava, do que por ter deixado de fazer alguma coisa.

Portanto, escolha, estude e faça. Trabalhe com as consequências e entenda que todo passo que damos é fruto daquilo que queremos. Caso contrário, será um passo dado em direção à vontade de outra pessoa.

Ótima semana!

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Psicopatia


Um dos transtornos mentais mais perigosos e certamente um dos mais difíceis de identificar.

O psicopata geralmente age de forma absolutamente normal no convívio com outras pessoas. Na maioria das vezes, é visto como alguém legal, encantador e simpático. Justamente por isso, quase nunca desperta suspeitas.

Isso acontece porque sua natureza é essencialmente manipuladora. O psicopata tende a conduzir os outros conforme seus próprios interesses, fingindo empatia, imitando sentimentos e demonstrando envolvimento, mesmo sendo incapaz de sentir qualquer emoção genuína. Ele não possui empatia e sua consciência não compartilha os valores sociais comuns. Por isso, frequentemente apresenta comportamentos que flertam com a ilegalidade e a violência.

Apesar da dificuldade em reconhecê-lo, alguns sinais, quando somados, podem chamar a atenção. O psicopata não respeita leis nem convenções sociais. Ignora os direitos das outras pessoas e não sente culpa ou arrependimento. Quando confrontado, pode reagir com agressividade e frieza.

Mesmo sendo sedutores e carismáticos, psicopatas são incapazes de criar vínculos emocionais verdadeiros. Essa ausência de conexão facilita a manipulação. Com grande habilidade para imitar sentimentos, conseguem conquistar a confiança de quem está ao redor com muita facilidade.

Isso os torna ainda mais perigosos. Muitos ocupam bons cargos, mantêm relacionamentos longos e têm famílias estruturadas. Essa aparência de normalidade os protege de suspeitas.

Assassinos em série, por exemplo, costumam ser psicopatas. Eles conseguem matar sem nenhum motivo aparente, apenas pelo prazer do ato. Podem tirar a vida de alguém que nunca viram antes e, logo depois, voltar para casa com naturalidade. Agem como se nada tivesse acontecido.

É importante ficar atento a pessoas que se apresentam com discursos excessivamente elaborados, frases marcantes, autoconfiança elevada ou cargos de prestígio. O psicopata pode tentar conquistar pela aparência, se passando por médico, advogado, artista ou escritor. Tudo faz parte do jogo de sedução e manipulação.

Se, além disso, você perceber um ego inflado, um exagero nas próprias conquistas ou uma constante necessidade de se destacar, é hora de acender o sinal de alerta. O psicopata costuma se vangloriar de feitos, invenções ou ideias que, segundo ele, mudaram o mundo. Esse tipo de discurso costuma encobrir intenções menos nobres.

Se for alguém próximo, com boa oratória e jeito envolvente, vale investigar antes de se aproximar demais. O psicopata mente com tanta naturalidade que muitas vezes nem percebe que está mentindo. Enganar se torna um tipo de esporte. E ele não lida bem com rejeições.

A ausência de empatia se estende a ele mesmo. Por isso, muitos se envolvem em situações de risco, buscando adrenalina e perigo. Atividades ilegais, rachas e uso de drogas fazem parte do repertório em casos mais graves.

Todo cuidado é pouco. E mesmo com pessoas do nosso convívio, é preciso lembrar que a personalidade não pode ser medida por trás de um sorriso.

Boa semana.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Fotos na Prateleira


Os aplicativos de encontro que surgiram aos montes nos últimos anos ajudaram muita gente a procurar e encontrar um par sem precisar sair de casa. Pessoas tímidas, caseiras ou mais acomodadas passaram a ter um meio mais acessível para conhecer alguém.

É uma possibilidade interessante e há muitos casos que dão certo. Mas, ao mesmo tempo, é também uma situação estranha e potencialmente perigosa.

Cada foto que o usuário coloca no aplicativo funciona como uma espécie de exposição em uma prateleira de loja. E quem se coloca ali também escolhe com quem quer conversar por meio de imagens. Até aí, tudo bem. Seria hipocrisia dizer que a aparência não é a porta de entrada em encontros às cegas. Afinal, é o primeiro filtro.

O problema começa quando se ignora o conteúdo da embalagem. Muitos não se preocupam em investigar as intenções reais da outra pessoa, ou sequer conferem se as informações do perfil são verdadeiras. Esse perfil, por sinal, funciona como o rótulo do produto exposto.

Não dá para prever se um relacionamento vai dar certo, mas quando ele já começa torto, as chances diminuem ainda mais.

Por isso, antes de marcar um encontro, é fundamental conversar bastante com o dono da foto escolhida na prateleira. Se o seu interesse for um relacionamento sério, verifique se a pessoa usa o nome verdadeiro, se tem outros perfis ativos nas redes sociais, se trabalha onde diz que trabalha. Coisas simples, mas que evitam muitas decepções.

Se o interesse for um encontro casual, uma noite ou algo passageiro, os cuidados devem ser ainda maiores. Nesses casos, a pressa costuma ser maior e o tempo para conhecer o outro é menor. A vulnerabilidade aumenta.

Outro ponto importante. É aconselhável que fotos sejam trocadas antes do encontro, mas não apenas aquelas editadas e cuidadosamente escolhidas. Envie e peça imagens mais reais, do dia a dia. Isso ajuda a reduzir o risco de frustração, que muitas vezes ocupa o lugar da expectativa quando a realidade não corresponde à vitrine.

E se o encontro for marcado, sempre avise alguém de confiança. Compartilhe sua localização em tempo real com amigos ou parentes e mantenha-se fiel ao que foi combinado previamente. Evite se isolar ou mudar de local sem necessidade.

Todo cuidado é pouco. Nem sempre aquela blusa linda na vitrine cai bem quando vestimos. O mesmo vale para as conexões que parecem promissoras à primeira vista.

O clichê continua valendo. Quem vê cara, não vê coração. E muito menos caráter ou intenção.

Até a semana que vem.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Neuroses

Neurose ou neuroticismo é o nome que se dá ao transtorno em que o indivíduo reage de forma desproporcional e, muitas vezes, incontrolável diante de determinadas situações. A dificuldade de regular as emoções e o excesso de sensibilidade emocional caracterizam essa condição.

É importante entender que a neurose não é apenas uma preocupação excessiva com algo por muito tempo, mas sim a reação exagerada e desorganizada frente às situações que despertam essa preocupação.

Uma característica fundamental das neuroses é que, em nenhum momento, o sujeito perde a noção de si mesmo ou do que está fazendo. Pelo contrário: ele tem consciência do que está acontecendo, mas ainda assim não consegue controlar a intensidade de suas reações. Seu comportamento pode destoar do que seria socialmente esperado, o que gera desconforto e sofrimento.

A neurose é marcada por intensa ansiedade e angústia, que podem gerar não apenas consequências emocionais, mas também efeitos físicos e fisiológicos, como dores, alterações no sono ou na digestão.

Apesar disso, é seguro afirmar que a grande maioria das pessoas já vivenciou episódios neuróticos em algum momento da vida. A neurose pode estar presente em quadros como depressão, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), entre outras condições psíquicas.

Assim como em muitos transtornos mentais, a neurose costuma ser percebida por meio de sinais como preocupação desproporcional aos fatos, medo excessivo diante de situações cotidianas, evitação de locais seguros, variações de humor ou manifestações de histeria. Muitas vezes, esses sinais se confundem com os sintomas do TOC ou de transtornos de ansiedade.

Outro ponto importante é que os episódios neuróticos podem surgir de forma repentina, especialmente em pessoas mais vulneráveis emocionalmente. Por isso, o tratamento deve começar o quanto antes, para evitar agravamentos.

A abordagem mais efetiva envolve o acompanhamento conjunto de psicólogo e psiquiatra, com intervenções psicoterapêuticas e, se necessário, o uso de medicação e exames complementares.

Se você percebe em si algum desses sintomas, procure ajuda. As neuroses são comuns, tratáveis e não há motivo para sentir vergonha em buscar apoio. Sua saúde mental vale muito mais do que qualquer julgamento. E cuidar de você é sempre o melhor caminho.


Síndrome de Stendhal

A Síndrome de Stendhal é uma condição psicológica rara, mas fascinante, caracterizada por uma reação emocional intensa e quase avassaladora ...