No meu caso específico isso é uma verdade tão absoluta que não há sequer tentar imaginar como seria a minha vida se um dia, no ano de 1977, tivesse um desfecho diferente.
Minha memória, claro, é bastante obscura, e eu diria que passei muitos anos da minha vida me culpando por uma atitude que não tive, segundo o que descobri há alguns dias, em conversa com a minha Mãe.
Eu achava que neste dia, em que minha vida tomou o rumo que me trouxe até aqui, eu tinha "decidido", entre aspas, porque uma criança não decide nada aos 5 anos, ficar na casa da minha tia e arrumado uma confusão enorme, deixando minha Mãe em prantos e envergonhada, descendo sozinha no elevador, enquanto eu definitivamente virava um morador dos jardins.
Mas, para meu tardio alívio, ela me contou que naquele meu momento de desespero o que eu queria, na verdade, era que ela não fosse trabalhar, era o primeiro dia dela no turno da noite e como meus irmão estudavam, não havia quem pudesse ficar comigo.
Contudo, independente do meu choro, da minha vontade, o que aconteceu naquele dia, realmente mudou a minha vida, meus caminhos, o rumo que eu tive oportunidade de seguir, as pessoas que fariam parte dos meus dias, o colégio, a faculdade, os empregos, tudo aconteceu porque naquele dia eu fiquei na casa da minha tia e dia após dia, fato após fato, fui ficando e quando nos demos conta, não havia mais caminho de volta.
Primeiro foi a ausência do meu avô, que fez minha avó pedir que eu ficasse mais um pouco, depois veio o colégio e a "desculpa" que durou a infância e a adolescência, de que eu tinha conseguido a bolsa e não podia simplesmente perder a oportunidade.
Houveram outros dias importantes, em outros anos, outras épocas, mas de todos os dias da minha vida, esse certamente foi aquele que definiu todo o resto e tudo o que ainda vai acontecer.
Se teria sido melhor ou pior a minha vida, ninguém jamais saberá, mas sou grato, porque mesmo com todos os defeitos, mesmo com todos os erros, mesmo com todos os dias em que a tristeza ou até mesmo um outro em estado depressivo que passei, me orgulho de ter chegado até aqui, da forma que cheguei.
A história continua...