segunda-feira, 16 de maio de 2022

Quando o sexo é a única opção

Nossa sociedade é construída sobre o alicerce forte dos julgamentos, dos esteriótipos, das verdades absolutas, do fanatismo e da falta de respeito com opiniões divergentes.

Uma sociedade que luta contra o aborto, mas se esquece das crianças de rua, ou não se importa quando são assassinadas por traficantes ou policiais, nem quando essas crianças que não foram abortadas são abusadas pelos pais, parentes ou desconhecidos.

Dizem que lutam pela vida, mas só até o nascimento, depois não se importam se a criança será deixada para adoção, ou se vai morrer de fome ou de frio.

Quando uma dessas crianças cresce e se vê com fome, sem abrigo, sem esperança e sem futuro, podem pensar em vender o próprio corpo para tentar encontrar um mínimo de dignidade.

E lá se vão, muitas ainda jovens, por vezes até mesmo crianças, para as estradas, esquinas e bordéis baratos nas partes mais escuras e abandonadas da cidade, onde são usadas por umas horinhas, na maioria das vezes por defensores da família tradicional, que brigam pelo fim dos direitos das mulheres e que ao saírem do buraco onde estavam com aquela menina, quanto mais jovem melhor, vão correndo chamar as mulheres independentes, com seus trabalhos e suas saias, de putas, sem vergonha e imorais.

Quantos desses hipócritas não ameaçaram suas amantes caso elas contassem seus casos, ou tivessem seus filhos, quantos não xingavam, humilhavam e agrediam as mulheres que pagavam para ter sexo, para provar sua frágil masculinidade.

Quantos tiveram a dignidade de alguma vez perguntar para uma delas porque estavam ali naquela esquina, sujeitas a tudo, ou escondidas naqueles quartinhos de bordeis, mesmo tão novas. Aliás, quantos sequer se interessaram em saber se alguma delas era maior de idade.

Será que alguém se importa em saber se aquela menina foi sequestrada, vendida, forçada, ameaçada, abandonada? Ou apenas se importa com o próprio prazer e em poder se sentir superior, fazer com elas o que não "se faz em casa", porque a esposa é santa "e puta, você sabe, é puta".

É fácil dizer que só vende o próprio corpo quem quer, quem é "sem vergonha", quer a vida fácil. Em alguns caso, pode ser mesmo, e ninguém tem nada com isso, mas certamente, na maioria dos casos, nem foi uma escolha, foi a única opção.


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