segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Conto em Gotas - Parte 8

 As outras 7 partes estão perdidas aqui pelo blog...

------------------------------------------------------------------------------

Ela hesitou teatralmente, deu um suspiro e um sorriso falso e perguntou:

- Não vou atrapalhar nada? Acho melhor esperar aqui...

-Não, não. Estou sozinho, acabei de comprar meu café da manhã e não tenho planos para agora, pode tomar uma água e até descansar um pouco, se quiser. Disse com um sorriso quase assustador.

- Tá bem então, obrigada! Disse ela em uma ingenuidade que seria demais até para a mais ingênua das mulheres.

Ele pareceu ficar nervoso quando se aproximaram da porta, quase derrubou as chaves e disse para ela, enquanto tentava achar o buraco da fechadura:

- Não repare na bagunça. Amanhã vou limpar a casa.

Ela não disse nada, colocou a mão por dentro da jaqueta para sentir seu revólver e o seguiu, mantendo uma distância de pelo menos um metro, para poder reagir, caso ele fizesse algum movimento brusco.

A primeira coisa que ela notou, foi o cheiro que chegou logo após que a porta se abriu, não cheiro de morte, mas de comida estragada, sujeira e quando ele a convidou para entrar e se dirigiu à cozinha, ela pensou que seria impossível não reparar na bagunça.

Um colchão coberto por um edredom imundo ficava em um dos cantos, ao lado uma televisão grande demais para o tamanho da sala. E perto de onde ela estava, havia um sofá de um lugar só, com tantas manchas que ela não sentaria nele nem se não aguentasse mais as próprias pernas.

Mas o que fez seu olhar ficar parado foi a estante na parede à sua frente, cheia de revistas jogadas, abertas, rasgadas, mas também com rolos de fita Silver tape, cordas sujas, um punhal e escondida sob as revistas, a ponta de uma faca que deveria ser bem grande.

- Você não acha que está muito quente para ficar com as janelas fechadas? – Falou alto em direção à cozinha, enquanto caminhava devagar já com a arma na mão que estava escondida na jaqueta.

- Já vou abrir, deixei fechada porque fui ao mercado. Disse ele virando em direção a ela com um copo na mão e água de um filtro de barro que possivelmente não era lavado há alguns anos.

Mas ele derrubou no chão o copo assim que olho para frente e viu o cano de um revólver apontado em sua direção.

- Levante os braços e vire de costas, agora! – Ela disse com a voz mais firme do que imaginava.

Mas ele não fez isso, ao contrário, avançou em direção a ela e só parou quando o tiro atingiu seu joelho direito.

- Socorro, socorro, Aiiii! – Gritou ele em estado de choque e desespero.

Ela sabia que o tiro tinha feito barulho e sabia que os gritos dele poderiam ser ouvidos fora da casa, mas com as janelas fechadas e a distância da rua, ela apostou em suas chances.

- Eu mandei você virar e levantar as mãos. Agora vai sangrar até morrer se não ficar quieto e fizer tudo o que eu mando!

- De, desculpe, desculpe – Choramingou ele.

Com a arma ainda apontada pare ele, ela deu dois passos para trás e pegou rapidamente a fita Silver tape na estante.

- Vira de costas e põe mão para trás – Falou em tom de desprezo.

Ele obedeceu, mas ela não ficou satisfeita, mandou que ele levantasse os braços. Pegou a ponta da fita, continuou apontando a arma para ele e pisou na sua cabeça, já colocando a fita em volta dos seus punhos. Ele tentou se debater, mas ela deu várias voltas e por fim tirou os pés da cabeça dele, mandou-o levantar e deixou que ele sentasse naquele sofá imundo, com as mãos presas atrás do corpo, em uma posição desconfortável, enquanto ela ficou de pé sobre o edredom sujo, que naquele dia não escondia ninguém...

- Você é da polícia; - Perguntou ele já quase tonto com a dor e a hemorragia.

-Não, muito pior do que isso, mas agora vou ajudar você com esse joelho. – Disse ela indo em sua direção com a fita Silver tape na mão, mas antes que ele pudesse pensar, ela colocou um pedaço sobre sua boa e deu mais volta por toda a sua cabeça, só então estancou, com a própria fita e por cima da calça furada, o sangramento.

- Pronto, agora vou tirar essa fita da sua boca e você vai me responder algumas perguntas...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Síndrome de Stendhal

A Síndrome de Stendhal é uma condição psicológica rara, mas fascinante, caracterizada por uma reação emocional intensa e quase avassaladora ...