Capítulo 3
Mas pelo menos ele tinha conseguido uma coisa boa na vida, mesmo tendo sido depois de quase 30 anos, Célinha, para os menos próximos, para os outros, Marcela.
O Pai de Célinha se disse tão
surpreso quanto o próprio Caio, disse que a filha, com um trabalho bom e estável
simplesmente fez uma mala com uma muda de roupa, o olhou nos olhos, beijou a
sua testa e disse – Eu te Amo, vou voltar em breve para lhe tirar daqui.
Viu apenas que a filha pegou um
táxi e não olhou para trás, disse que tinha imaginado que a filha teria brigado
com Caio e por isso de cabeça quente tinha ido embora, mas achava que em dois
ou três dias estaria de volta. Não Voltou.
Realmente
eles brigaram, como sempre, por causa da insegurança e ciúme desmedido de Caio,
que queria deixar Célinha presa em seu quarto, em sua casa, nos seus sonhos, em
sua vida. Tudo o que ele queria era poder admirar a beleza e a candura da Moça,
mas sua boca, sua maldita boca externava com muita facilidade os pensamentos e
medos que deveriam ficar submissos no inconsciente. Suas palavrar ferinas
feriram fundo desta vez e o arrependimento e o pedido de perdão não foram
suficientes, infelizmente...
Depois
de duas semanas de celular desligado, sem retorno dos e-mails e nenhum sinal,
ele finalmente cedeu e voltou, voltou a fazer o que sempre soube que não podia,
não por passar mal, nem por vomitar e nem mesmo por dar escândalos e perturbar
aos outros, ele sabia que não podia beber por causa do barulho, do barulho
ensurdecedor.
Ele até mesmo quis algumas vezes no passado dar
vexame de propósito, fingir que tomou tanto que no dia seguinte não lembrava
nada, enfim, ser um bêbado normal, mas não, isso nunca aconteceu. Por pior que
ele estivesse, sempre chegava em casa, desde os tempos em que ainda morava com
seus Pais e tinha que fazer silêncio, mas dava risada quando acendia a luz.
Caio estava morando naquilo que
ele chamava de espelunca há alguns anos, há tempos queira se mudar, mas há
ainda mais tempo lhe faltava o dinheiro.
E agora, sem Marcela, lhe faltava
todo o resto, só sobrava mesmo a depressão, a tristeza e raiva que tinha toda
noite quando chegava na espelunca e ficava parado na rua esperando o vagabundo
do vigia acordar para abrir a porta do prédio para ele entrar.
Dan
Rotber é um pobre diabo. Um misto de zelador e faxineiro daquele prédio sem
graça e sem meninas. Seu divertimento era pegar seu mísero salário e gastar todo
em uma semana nos bares de strip-tease do centro, mas sua situação vinha
piorando a cada semana, talvez a cada dia. A saúde debilitada, os remédios
caros, as dívidas com jogo e com Marlon só aumentando e nenhuma perspectiva de
melhora, pelo contrário, só reclamações dos moradores idiotas daquele lugar,
principalmente daquele metidinho a repórter que agora tinha dado para chegar de
madrugada e acordá-lo de seu sono, por preguiça de procurar a sua chave.
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