Marcela Mendonça era uma mulher decidida, que sabia o que queria da vida desde que sua amada mãe morreu quando ela ainda era uma criança de 9 anos. Viu seu pai se tornar uma pessoa fraca e desiludida e desde os dezesseis anos de idade era ela quem trabalhava para sustentar a casa. Mas ainda era pouco, ela queria mais e se dedicou aos estudos, mesmo tendo que aprender praticamente sozinha em virtude do ensino fraco das escolas estaduais, mas seu esforço não foi em vão. Ela se tornou uma psicóloga de primeira linha, mas resolveu atuar na área de Recursos Humanos por um ótimo salário e por conhecer o psicólogo chefe do departamento, que foi seu professor na faculdade e que sempre demonstrou uma queda por ela. Mas ela não se abalava, já sabia que não ia dar certo, pois sentia por ele uma admiração quase fraternal e além disso, estava apaixonada pelo maluco do Caio, apesar de todo ciúme, de toda chatice, ele era o que ela procurava em um homem. E ausência total de ciúme também devia ser ruim, era bom para o ego saber que tinha alguém preocupado em perdê-la. Só que para tudo há um limite e este limite estava perto de chegar, pelo menos era o que ela pensava.
De volta à delegacia - 24 de Setembro
Caio
não sabia o que fazer, dizia apenas não, não e não, eu a amava, eu jamais faria
isso. Mas não tinha como responder quem teria entrado no quarto e matado a moça
sem ele ver, sendo que ele nem se lembrava dela ter entrado no quarto.
O Sr. de
terno solicitou que ele colocasse uma roupa, mas não o autorizou a tomar banho,
ele iria direto para o IML fazer um exame de corpo e delito, para que pudesse
ser feita uma análise do sangue que estava em seu corpo.
Enquanto desciam, ao
passar pela portaria, viu Dan o encarar assustado e então veio à tona o que o
Sr. de Terno o disse há alguns minutos atrás.
- Dr. que dia o Sr. Disse
que aconteceu o crime?
- Humpf, não sabe nem em
que dia está colega, vai querer usar essa história de amnésia em sua defesa ?
Hoje é dia 24 de Setembro.
- Não pode ser! Gritou Caio,
se arrependendo em seguida, primeiro pela dor na cabeça e depois pela puxada
forte e pelo grito de retorno que o Sr. De terno deu bem no seu ouvido. – Como
não pode ser!?
- Ai! Porque não pode,
tenho certeza de que ontem foi dia 22 e sei exatamente tudo o que fiz, apesar
de ter bebido talvez um pouco além da conta. Podem perguntar para o Dan, o porteiro,
ele que abriu a porta para eu entrar.
- Tá certo – Disse o Sr.
de Terno, que olhou para trás, depois para os lados e deu um tapa com toda
força na cabeça de Caio. – Não ache que chegamos até a sua casa sem querer,
houveram denúncias de três anônimos que ouviram gritos desesperados de uma
mulher, barulhos como se estivessem destruindo o apartamento e por fim pedidos
de socorro.
Caio abaixou a cabeça, mas
não conseguiu pensar em nada. Nada fazia sentido e agora vinha um maluco
dizendo que um dia da vida dele tinha sumido e justamente neste dia ele tinha
cometido um assassinato. Justo ele, que fugia até de briga na escola.
- E..Eu preciso de um
advogado! – Por fim disse um resignado Caio.
- Poderá ligar para ele
depois que chegarmos à delegacia.
Mas Caio
não tinha um advogado, teria que ligar para o jornal e ver se conseguia um,
barato e bom, ou teria que passar muito tempo preso, por ter matado a mulher
que ele sempre sonhara em proteger.
Chegando
na delegacia ele ligou para o jornal e seu chefe sem entender direito disse
apenas que mandaria o advogado do jornal, que era sempre muito acionado por
causa das fotos e reportagens indiscretas que o próprio Caio fazia, mas que não
havia condições de o jornal pagar por ele, isso ele deveria acertar.
Então
ele se dirigiu com o Sr. de Terno e o tal de Cláudio para um cubículo que ele
reconhecia dos filmes americanos.
O Sr. de Terno ligou uma
câmera e perguntou se eles poderiam começar sem o advogado, pois assim as
coisas poderiam terminar mais rápido, o que animou pelo menos um pouquinho o
dia de Caio. Mas animação durou apenas até a primeira pergunta: - O Sr. matou a
Srta. Marcela Mendonça?
- Não, claro que não! –
Respondeu Caio.
- Então o Sr. precisa nos
ajudar a achar o assassino. Tem certeza de que o sangue no seu corpo não é
dela, e o sangue nas paredes do seu quarto, não são dela e não pode ser seu
também? – Disse olhando diretamente para a mão machucada e ainda com vestígios
de sangue de Caio.
- Sinto muito Sr., mas
acho que não posso ajudar a descobrir quem pode ter feito isso, um dia inteiro
foi apagado da minha lembrança. Voltei para a minha casa no dia 22 por volta de
23 horas e o Sr. apareceu de manhã dizendo que já era dia 24 e com toda essa
bagunça na minha casa.
- Quer dizer que aconteceu
uma gritaria enorme na sua casa, pessoas sendo jogadas na parede e pedindo por
socorro e seu sono foi tão pesado que mesmo depois de ter dormido por quase um
dia todo o Sr. não acordou com o barulho do seu lado ?
- Eu não ouvi barulho
nenhum...
- Sobre o que vocês
conversaram, o que a Srta. Marcela lhe contou que possa ter gerado tanta raiva
a ponto de você cometer esse crime, ou causar um trauma tão grande que tenha
feito você simplesmente esquecer o que fez?
- Eu não conversei com
Marcela, não falo com ela há mais de duas semanas e não sei como ela apareceu
em casa, isso era tudo o que eu queria e por causa da tristeza causada pela
ausência dela que eu estava bebendo...
- Certamente o Sr. não
ficaria feliz em saber que ela estava saindo com outra pessoa...
- Não, não ficaria, mas jamais faria algo que pudesse machuca-la.
Jamais.
As primeiras lágrimas
começaram a cair dos olhos dele e o Sr. de Terno quase acreditou que fosse
verdade, mas só quase. – Bem Sr. Caio, o Sr. será acusado de estupro e
assassinato...
- Estupro!! Como assim,
mesmo que ela estivesse em minha casa, éramos noivos e sempre nossa relação foi
consensual.
- Mas pelas marcas no corpo
dela e no seu, desta vez não foi. Talvez ela não quisesse mais, por estar
apaixonada por outro, mas o Sr. deve ter ficado com muita raiva e quis tê-la
pelo menos mais uma vez, e ela se defendeu.
Agora Caio chorava
copiosamente – Meu Deus, jamais, nunca eu seria capaz de uma coisa dessas.
- Cláudio, leve o Sr. Caio
para a cela, quem sabe lá ele refresca um pouco a memória e resolve colaborar...
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