terça-feira, 13 de agosto de 2024

Enjoy the Silence - Capítulo 4 - Marcela

          Marcela Mendonça era uma mulher decidida, que sabia o que queria da vida desde que sua amada mãe morreu quando ela ainda era uma criança de 9 anos. Viu seu pai se tornar uma pessoa fraca e desiludida e desde os dezesseis anos de idade era ela quem trabalhava para sustentar a casa. Mas ainda era pouco, ela queria mais e se dedicou aos estudos, mesmo tendo que aprender praticamente sozinha em virtude do ensino fraco das escolas estaduais, mas seu esforço não foi em vão. Ela se tornou uma psicóloga de primeira linha, mas resolveu atuar na área de Recursos Humanos por um ótimo salário e por conhecer o psicólogo chefe do departamento, que foi seu professor na faculdade e que sempre demonstrou uma queda por ela. Mas ela não se abalava, já sabia que não ia dar certo, pois sentia por ele uma admiração quase fraternal e além disso, estava apaixonada pelo maluco do Caio, apesar de todo ciúme, de toda chatice, ele era o que ela procurava em um homem. E ausência total de ciúme também devia ser ruim, era bom para o ego saber que tinha alguém preocupado em perdê-la. Só que para tudo há um limite e este limite estava perto de chegar, pelo menos era o que ela pensava.

            De volta à delegacia - 24 de Setembro    

            Caio não sabia o que fazer, dizia apenas não, não e não, eu a amava, eu jamais faria isso. Mas não tinha como responder quem teria entrado no quarto e matado a moça sem ele ver, sendo que ele nem se lembrava dela ter entrado no quarto.

            O Sr. de terno solicitou que ele colocasse uma roupa, mas não o autorizou a tomar banho, ele iria direto para o IML fazer um exame de corpo e delito, para que pudesse ser feita uma análise do sangue que estava em seu corpo.
            Enquanto desciam, ao passar pela portaria, viu Dan o encarar assustado e então veio à tona o que o Sr. de Terno o disse há alguns minutos atrás.
            - Dr. que dia o Sr. Disse que aconteceu o crime?
            - Humpf, não sabe nem em que dia está colega, vai querer usar essa história de amnésia em sua defesa ? Hoje é dia 24 de Setembro.
            - Não pode ser! Gritou Caio, se arrependendo em seguida, primeiro pela dor na cabeça e depois pela puxada forte e pelo grito de retorno que o Sr. De terno deu bem no seu ouvido. – Como não pode ser!?
            - Ai! Porque não pode, tenho certeza de que ontem foi dia 22 e sei exatamente tudo o que fiz, apesar de ter bebido talvez um pouco além da conta. Podem perguntar para o Dan, o porteiro, ele que abriu a porta para eu entrar.
             - Tá certo – Disse o Sr. de Terno, que olhou para trás, depois para os lados e deu um tapa com toda força na cabeça de Caio. – Não ache que chegamos até a sua casa sem querer, houveram denúncias de três anônimos que ouviram gritos desesperados de uma mulher, barulhos como se estivessem destruindo o apartamento e por fim pedidos de socorro.
            Caio abaixou a cabeça, mas não conseguiu pensar em nada. Nada fazia sentido e agora vinha um maluco dizendo que um dia da vida dele tinha sumido e justamente neste dia ele tinha cometido um assassinato. Justo ele, que fugia até de briga na escola.
            - E..Eu preciso de um advogado! – Por fim disse um resignado Caio.
            - Poderá ligar para ele depois que chegarmos à delegacia.

            Mas Caio não tinha um advogado, teria que ligar para o jornal e ver se conseguia um, barato e bom, ou teria que passar muito tempo preso, por ter matado a mulher que ele sempre sonhara em proteger.

            Chegando na delegacia ele ligou para o jornal e seu chefe sem entender direito disse apenas que mandaria o advogado do jornal, que era sempre muito acionado por causa das fotos e reportagens indiscretas que o próprio Caio fazia, mas que não havia condições de o jornal pagar por ele, isso ele deveria acertar.

            Então ele se dirigiu com o Sr. de Terno e o tal de Cláudio para um cubículo que ele reconhecia dos filmes americanos.
            O Sr. de Terno ligou uma câmera e perguntou se eles poderiam começar sem o advogado, pois assim as coisas poderiam terminar mais rápido, o que animou pelo menos um pouquinho o dia de Caio. Mas animação durou apenas até a primeira pergunta: - O Sr. matou a Srta. Marcela Mendonça?
            - Não, claro que não! – Respondeu Caio.
            - Então o Sr. precisa nos ajudar a achar o assassino. Tem certeza de que o sangue no seu corpo não é dela, e o sangue nas paredes do seu quarto, não são dela e não pode ser seu também? – Disse olhando diretamente para a mão machucada e ainda com vestígios de sangue de Caio.
            - Sinto muito Sr., mas acho que não posso ajudar a descobrir quem pode ter feito isso, um dia inteiro foi apagado da minha lembrança. Voltei para a minha casa no dia 22 por volta de 23 horas e o Sr. apareceu de manhã dizendo que já era dia 24 e com toda essa bagunça na minha casa.
            - Quer dizer que aconteceu uma gritaria enorme na sua casa, pessoas sendo jogadas na parede e pedindo por socorro e seu sono foi tão pesado que mesmo depois de ter dormido por quase um dia todo o Sr. não acordou com o barulho do seu lado ?
             - Eu não ouvi barulho nenhum...
             - Sobre o que vocês conversaram, o que a Srta. Marcela lhe contou que possa ter gerado tanta raiva a ponto de você cometer esse crime, ou causar um trauma tão grande que tenha feito você simplesmente esquecer o que fez?
             - Eu não conversei com Marcela, não falo com ela há mais de duas semanas e não sei como ela apareceu em casa, isso era tudo o que eu queria e por causa da tristeza causada pela ausência dela que eu estava bebendo...
             - Certamente o Sr. não ficaria feliz em saber que ela estava saindo com outra pessoa...
             - Não, não ficaria,  mas jamais faria algo que pudesse machuca-la. Jamais.
             As primeiras lágrimas começaram a cair dos olhos dele e o Sr. de Terno quase acreditou que fosse verdade, mas só quase. – Bem Sr. Caio, o Sr. será acusado de estupro e assassinato...
             - Estupro!! Como assim, mesmo que ela estivesse em minha casa, éramos noivos e sempre nossa relação foi consensual.
             - Mas pelas marcas no corpo dela e no seu, desta vez não foi. Talvez ela não quisesse mais, por estar apaixonada por outro, mas o Sr. deve ter ficado com muita raiva e quis tê-la pelo menos mais uma vez, e ela se defendeu.
             Agora Caio chorava copiosamente – Meu Deus, jamais, nunca eu seria capaz de uma coisa dessas.
             - Cláudio, leve o Sr. Caio para a cela, quem sabe lá ele refresca um pouco a memória e resolve colaborar...

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