domingo, 14 de agosto de 2011
Abutres
Quem gosta de escrever, como eu, também tem paixão pela leitura. E é comum termos escritores mais identificados ao nosso gosto. Tenho alguns, mas para esse artigo me baseio nos livros do Jonh Grisham.
Há já uns bons anos, chegando ao final do livro "O Rei das Fraudes" do Grisham, comecei a sentir pena do advogado, personagem principal do livro, não uma pena comum, que sentimos de uma pessoa em apuros, ou que esteja passando por uma situação difícil, mas pena por saber que o seu final seria trágico, ruim, miserável.
E olha que durante o livro ele chegou a ter 50 milhões de dólares, um avião Gulfstream, casa em Georgetown e etc... ( Além da Linda Ridley ).
Mas, o que me chamou a atenção e me deu a certeza de que o final conteria qualquer coisa ruim, foi que durante todo o começo e meio do livro, ele só se deu bem, trabalhou muito, ganhou dinheiro, passou de um pobre advogado a milionário.
(Tudo a ver com o artigo que publiquei recentemente sobre ganância acabaria acontecendo, ou seja, não se conteve em ter tido sorte e começou a querer sempre mais, até perder tudo...)
O que me intrigou, e me fez pensar e rascunhar muito tempo, foi o fato de sempre ser necessária uma tragédia. Seja um acidente fatal, uma guerra, um crime, um prejuízo milionário, uma morte por doença, um abandono... SEMPRE em qualquer livro ou filme, que não seja documentário, musical ou auto-ajuda, tem que ter uma situação desconfortável. Até mesmo nas comédias, onde damos risadas das "desgraças" dos personagens.
Comecei, então, a achar que a "vida normal" não deve ter graça. Alguém nascer em uma família simples, ter os pais ajuizados e unidos, estudar, não virar drogado nem bandido, não matar ninguém, nem trapacear para entrar no trabalho, subir na vida pelos degraus corretos, sem pisar nos subordinados, sendo honesto, generoso e educado, encontrar uma pessoa que respeite e seja respeitado, procriar, ter lindos filhos, perfeitos e saudáveis, inteligentes, que agradeçam a família que receberam e não "cuspam no prato que comeram", e que estes lhe deem netos igualmente carinhosos, afetuosos, que enxerguem e entendam a importância que os avós tiveram em sua vida, que percebam que se estão aqui também foi por causa deles, para assim, aquele que nasceu no início deste parágrafo, possa partir e continuar a vida de sua alma em outro lugar, ou simplesmente desaparecer do mundo dos vivos em paz e com o dever cumprido.
Essa história provavelmente não venderia, o filme seria fracasso de bilheteria e muitos diriam que isso é "normal demais", pois é exatamente como deveria ser. Mas quantos de nós pode dizer que a vida foi assim, e quantos de nós choramos por não ter sido, por termos perdido chances de ser pessoas melhores e abrimos os olhos tarde demais.
Quantos de nós fomos levados pela ganância, pelo completo abandono do próximo, por viver como abutres em busca de uma tragédia para ler, para ver, para poder conversar.
Quantos de nós agradecem por não ter estado em um lugar aonde muitos morreram, mas esquecem do pesar das famílias dos que estavam lá...
Quantos de nós assistimos à imprensa sensacionalista que, como verdadeiros abutres pairam sobre o mundo a procura de desgraças que virem notícia, rendam anúncios e aumentem a audiência, que vendam revistas e jornais, que durem por muitos dias, para que as páginas e horários não fiquem vazios...
Quantos de nós...
Photo by Samuel Pagel on Unsplash
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Síndrome de Stendhal
A Síndrome de Stendhal é uma condição psicológica rara, mas fascinante, caracterizada por uma reação emocional intensa e quase avassaladora ...
-
Talvez você nunca tenha ouvido falar da Doença de Urbach-Wiethe, mas além de rara, é uma doença extremamente perigosa. Ela não mata por si ...
-
Eu acho época de eleição muito chata, ainda mais para um cara chato como eu... Mas o que mais me irrita são os militantes partidários e aq...
-
Em virtude da enorme criminalidade e da falta de segurança, muito se critica o desarmamento no nosso país. Combinando o armamento pesado dos...

Esse sim é vc escrevendo Elso :)
ResponderExcluirCongratulations! :D
Obrigado Flavinha.
ResponderExcluirElso, muito bem expressado. A vida tem que ser tragicômica, trágica ou uma comédia, para que seja, nas suas palavras, interessante. Nós os comuns, realmente não damos "IBOPE". Abraços
ResponderExcluirObrigado pela visita e pela opinião Elias.
ResponderExcluirO Blog estava sentindo falta!