terça-feira, 10 de março de 2015

Hipocrisia



Os nomes aqui apresentados, claro, são fictícios, bem como os diálogos, que criei para ilustrar o tema.

No ônibus Ana avista Júlia chorosa sentada sozinha em um banco ao fundo.
Uma semana antes, Júlia contou a Ana, sobre a desconfiança da traição do marido e Ana pode perceber que no dedo da colega não está mais a aliança.
- O que aconteceu Júlia, porque essa cara de tristeza ?
- Sabe as minhas desconfianças sobre o Zé, pois é, eram reais e ele realmente estava saindo com a Margarida.
- Nossa Amiga, que coisa, sinto muito por você. Esses homens não valem nada mesmo, por isso eu não caso.
- É verdade, faz bem, evita esse sofrimento, mas eu sei que a culpa não é só do Zé, a Margarida sabia que ele era casado e mesmo assim ficou com ele.
- Ah Amiga, desculpa pela expressão, mas mulher que sai com homem casado pra mim é uma Vaca, para não dizer coisa pior.
E Júlia, indignada com Margarida, se despede de Ana e vai para casa.
Chegando, vai tirando os sapatos e ao mesmo tempo apertando a discagem rápida no celular, morrendo de vontade de falar com João.
No primeiro toque ele atende, mas não fala nada, ela apenas escuta vozes se afastando. Em seguida ele responde quase sussurrando:
- Alô...
- Oi Meu Amor, não resisti e precisava ouvir a sua voz, estou morrendo de saudades de você e não vejo a hora de nos encontrarmos amanhã na hora do almoço...
- Quantas vezes eu já lhe falei para não me ligar depois das 18:00! Você sabe que eu estou em casa com a minha Mulher e com meus filhos. Desse jeito eu perco a vontade de te encontrar sabia?
- Nossa, fica aí com essa Piranha da sua Mulher... Desculpa, não ligo mais...
Mal ela termina de falar e ele desliga o telefone na cara dela.


Zé e João sentam um em frente ao outro no trabalho. Os dois são assistentes e tem a pretensão de um dia chegarem à gerência. São amigos, até confidentes e estão nesse momento conversando sobre a demissão do gerente deles que aconteceu há pouco mais de uma semana.
Zé, cochichando, fala para João:
- Fiquei sabendo de um boato aí... Parece que o Tião foi mandado embora porque o Almeida foi fofocar para o diretor sobre as "canas" que ele tomava fora do serviço.
- Nossa, diz João, mas que coisa estúpida de se fazer, coisa de gente baixa, fofoqueira, esse Almeida é um pária mesmo. Porque tem que se meter na vida particular dos outros?
- É, lamentável esse comportamento. E agora o Tião fica sem emprego, passando a maior dificuldade. Imagino se acontecesse algo assim comigo, nessa situação que estou, quase me separando, com dívidas e nessa crise que o País está, como conseguir outro emprego?
- Pois é, se eu fosse o diretor eu mandava embora era o fofoqueiro do Almeida, coitado do Tião... – Diz o indignado João com o comportamento do Almeida.
Nessa hora, o telefone do João toca e o diretor o chama para conversar na sala dele.
Ele vai, entra e se senta.
O diretor diz:
- João, você sabe que tive que dispensar o Tião, pois acredito que o comportamento dele fora da empresa estava prejudicando os resultados e que eu vou colocar ou você ou o Zé para gerenciar a equipe. Porque eu deveria escolher você 
- A chefe, o Zé está traindo a esposa e bebendo demais e jogando a dinheiro ainda por cima. Eu tenho ficado sobrecarregado, porque ele apesar de chegar no horário está lento para pensar e realizar as coisas e fica o tempo todo conversando para falar das mazelas da vida dele...
- Ah.. Bom saber, de longe eu nem tinha percebido a diferença.
Então o diretor agradece, liga para o RH, pede para preparar outra carta de demissão e liga para a mesa do Zé...

Ana e Júlia conversam durante o almoço sobre a reportagem que passou na TV no dia anterior, sobre o preconceito que ainda existe no Mundo todo.
- Você viu, Ana, aqueles Espanhóis irracionais que jogaram uma banana naquele jogador de futebol e ficaram cantando músicas racistas para ele o tempo todo?
- Vi Júlia, que coisa ridícula não, em pleno século XXI ainda existe gente que se comporta dessa maneira.
- Verdade, afinal somos todos iguais, todos irmãos. Uma coisa deplorável. Completa Júlia se levantando.
Elas saem do restaurante, atravessam a rua e entram no prédio em que trabalham, precisam subir até o 10º andar. Quando chegam ao elevador, um provável office-boy, negro, está tranquilamente sozinho aguardando o elevador chegar, o que acontece em seguida.
Ele entra e Ana começa a correr para poder aproveitar e não perder tempo, mas Júlia, olhando fixamente para o rapaz, segura o braço de Ana e diz:
- Melhor esperarmos o elevador voltar...

Entedeu?

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