segunda-feira, 19 de outubro de 2020

1980 - Ano 8

 A primeira lembrança que tenho de 1980 é do dia 31 de Janeiro.

Eu estava deitado, na cama em que dormia com a minha avó e escutei ela entrar apressada e ansiosa no quarto da minha tia dizendo: - Mara, seu pai morreu, com a voz misturada e que continha um misto de tristeza e necessidade de rapidez.

O pai da minha tia, meu querido avô, aquele que me levava para o parque todo fim de semana, que me levava para a casa da minha mãe, que demonstrava amor e com quem convivi tão pouco.

Eu continuei fingindo que estava dormindo e inclusive quando vieram me avisar, ainda fingia que não estava ouvindo, simplesmente não queria acreditar, imagino eu.

Não pude ir no funeral, nem no velório, aquilo não era coisa para criança, então meu último contato com ele foi no hospital, onde entrei escondido para vê-lo, e onde minha memória não chega direito.

A morte do meu avô foi, praticamente, o final de qualquer chance que poderia existir para eu voltar a morar com a minha mãe. Para a minha avó eu era a nova razão de viver e parecia inconcebível que fosse diferente.

De resto são poucas as lembranças. Com carinho lembro da Tia Paul, professora da primeira série, quando eu ainda só tirava notas altas na escola e meu maior problema era a letra feia e os detestáveis cadernos de caligrafia,

Mas a falta de amigos e a convivências "preso" no apartamento foram se acentuando e cada vez mais me via brincando sozinho com bonequinhos que eram jogadores de futebol, com pedacinhos de papel onde eu escrevia valores e se transformavam em dinheiro que eu não usava para comprar nada.

É, a vida passa, as lembranças somem e num piscar de olhos já estamos chegando nos 50 anos...

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