terça-feira, 27 de julho de 2021

Abandonar antes de ser abandonado

Muitas vezes pensamos no dito popular que nos ensina a pular do barco antes que ele afunde.

E muitas vezes também nos pegamos em conflito sobre a retidão de abandonar alguém, ou alguma coisa, que provavelmente não vai conseguir "pular do barco" sem receber apoio ou ajuda.

Qual a medida correta que separa o egoísmo do amor próprio, a fuga da saúde mental, o abandono do ser abandonado?

Costumo sempre dizer aos meus pacientes sobre a mensagem à bordo dos aviões, onde nos explicam que em caso de descompressão devemos primeiro colocar a máscara em nós mesmos, para depois ajudar quem não consegue colocar a máscara sozinho.

Isso tem um significado muito simples e muito importante e que serve para tudo na vida. Não conseguimos ajudar ninguém, se não conseguirmos cuidar, antes, de nós mesmos.

É melhor pular do barco para procurar a ajuda, do que morrer afogado com outra pessoa por medo de deixá-la sozinha. E em outros casos, é melhor pular do barco para salvar a si mesmo, ao invés de se afogar com quem te sufoca.

Outra coisa muito importante é saber que não devemos fazer nada por gratidão. Se vamos pular do barco para procurar ajuda e tentar salvar quem lá ficou, não adianta vivermos no conforto de que aquela pessoa vai fazer o mesmo por nós quando ficarmos presos em outro barco prestes a afundar. Muitas pessoas acham que devemos lhes estender a mão o tempo todo, mas são as primeiras a procurar o bote salva-vidas e pularem do barco sozinhas.

Seja qual for a nossa decisão, precisa ser feita por vontade própria e sem expectativa de retorno. O mundo é assim, as pessoas são assim. Não se pode esperar nada a não de ser de si mesmos.

Também nunca saberemos o que vamos encontrar no mar depois de pular do barco. Se vai ser uma sereia ou um tubarão. Não podemos nos prender ao medo e nem ao desejo. Devemos estar prontos para lidar com o imprevisto que surgir e batalhar ou aproveitar. A única coisa que não podemos é sentar e ver o barco afundar, esperando que, como um milagre, seus problemas fossem desaparecer e ele volte a flutuar normalmente em águas calmas.

Abandone o barco, antes que ele o abandone à própria sorte!


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Eu não quero

Eu não quero.
E se não quero, não adianta você querer.
Eu não quero.
E não sou obrigado a querer o que você quer.

Eu não quero.
Mas isso não significa que você precisa deixar de querer.
Eu não quero.
Mas você ainda pode ter.

Minha barba branca me diz o que fazer.
Mas ela é muda para outros ouvidos.
Minha barba branca não me permite escutar.
Portanto jamais ouvirei o que você quer.

O ar que eu respiro é do lugar em que quero estar.
E não vou me sufocar guardando palavras que você não quer escutar.
O ar que eu respiro não traz consigo palavras que você quer me dar.
E se não às respiro, qual seria a verdade do simples falar?

Há quem cobra a verdade, mas que mastiga a mentira.
Também aqueles que mentem para esconder a verdade.
Há quem pede a verdade mas no fundo quer ouvir a mentira.
Também os reclamam da verdade, porque preferem acreditar na mentira.

Eu não quero.
E meu silêncio mantem minha barba branca.
Eu não quero.
E a mentira seria o querer...

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Ano 12 - 1984

 

Essa foto representa bem o que foi o meu ano de 1984.

Eu, morrendo de ciúmes da minha vó segurando a minha prima que acabará de chegar para "tomar o meu lugar".

E é engraçado como são as coisas quando vista de outra perspectiva, em outro tempo, com outro entendimento.

Além de ser praticamente minha irmã, essa criaturinha ali no colo da minha vó se transformou em alguém imprescindível na minha vida. E, hoje, fico feliz em não tê-la jogado pela janela, como dizia que queria no distante 1984.

Mas houveram outras grandes mudanças na minha vida. Talvez um início de rebeldia, fruto, ou não, do surgimento da minha rival. Fui mal pela primeira vez na escola. Passei a não querer estudar, fiquei de recuperação e a tal matemática fez um inferno na minha cabeça.

Houve também outra mudança importante, a de casa. Fomos morar em um apartamento maior e ganhei um quarto só pra mim! Foi o máximo!

No prédio novo fiz um amigo, que trago até hoje no coração, apesar da distância e da dificuldade atual de contato. Não precisava mais jogar botão sozinho!

Os problemas no apartamento novo também começaram a surgir. Lembro que meu tio ficava mais no meu pé e por começar a querer mais coisas, conhecer mais coisas e conviver com um monte de gente com mais possibilidade do que eu, faziam com que eu me distanciasse e tentasse chamar a atenção de outras formas.

Foi o começo da tentativa de popularidade misturada com a vontade de ficar sozinho, deste menino estranho que hoje só pensa em pessoas como objeto de estudo.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Chantagem

 Poucas coisas são tão cruéis nessa vida quanto a chantagem.

Seja ela financeira, para tirar vantagem sobre outras pessoas ou emocional.

A chantagem é a ferramenta dos incompetentes, dos incapazes, daqueles que precisam do jogo sujo para ter alguma coisa, daqueles que se acham espertos, mas na verdade estão na sarjeta da história.

E, infelizmente, quase todo mundo conhece alguém assim, alguém que merece ir para a lata de lixo da sua vida e da lá não sair nunca mais.

No trabalho, existem aqueles que se acham superiores, por ter um cargo melhor, ou um parentesco com o dono da empresa e usam esse cargo para chantagear funcionários, seja para esconder seus erros, seja para ter benefícios pessoais, por exemplo, ameaçando funcionárias que precisam do emprego, se negarem um caso ou relacionamento com ele. Nesses casos, além da chantagem em si, entra a chantagem emocional, quando o "patrão" percebe a vulnerabilidade da funcionária e ameaça expor o caso dos dois, atacando sua moral e bagunçando toda a vida dela.

Claro que, em menor quantidade, existe o inverso, mulheres que seduzem seus chefes casados e depois fazem chantagem com fotos, áudios e vídeos, para obter dinheiro ou promoção.

Na vida pessoal, muitos falsos amigos aparecem quando menos se espera, cobrando favores de forma irracional, ameaçando contar segredos compartilhados e julgando atitudes que antes apoiava. Esses chantagistas são especialmente cruéis, porque normalmente deles nunca se esperava nada parecido com isso, mas sempre devemos estar prontos para qualquer tipo de atitudes de qualquer ser humano.

Por fim, nos relacionamentos abusivos, o papel principal cabe à chantagem, não ao chantagista manipulador, pois esse nada mais é do que um desesperado que não consegue ser verdadeiramente amado. Na chantagem emocional, a pessoa abusada se sente dependente do outro, como se não houvesse nada melhor no mundo e isso acontece justamente porque o outro, através de manipulação e se aproveitando da fragilidade da pessoa abusada, a convence de que isso é verdade.

Ameaça de abandono, como se isso não fosse bom, agressões físicas, mas principalmente emocionais, marcam o tom do relacionamento, onde o chantagista tripudia do outro, colocando-o cada vez mais no fundo de um poço que parece não acabar nunca.

Apenas com muita ajuda e trabalho psicológico é possível recuperar a vida e colocar o chantagista em seu devido lugar.

Cuidado! Não se deixem levar por quem fala muito, mas vive guardando palavras ou atitudes que podem ser usadas contra você!

Boa Semana!


Síndrome de Stendhal

A Síndrome de Stendhal é uma condição psicológica rara, mas fascinante, caracterizada por uma reação emocional intensa e quase avassaladora ...