segunda-feira, 27 de maio de 2024

O Mundo já acabou

No meu sonho avisto um vilarejo. Pitoresco, no meio de verdes montanhas e rios azuis  ou transparentes. Avisto, em meu sonho, pessoas aparentemente comuns, completamente desconhecidas.

Na padaria, o padeiro, acordava às quatro da manhã para preparar os pães mais deliciosos da região. Sua padaria, era o ponto de encontro preferido dos moradores. O cheiro de pão fresco e café invadia as ruas, e as minhas narinas. 

Tinha também a costureira que costurava vestidos de festa e consertava as calças rasgadas. Suas mãos, ágeis e experientes, moviam-se com uma destreza que só décadas de prática poderiam proporcionar. Ou talvez séculos, considerando que ela parecia ser mais velha que o próprio tempo.

Ainda conseguia enxergar com clareza o gari que cuidava da praça central? Com seu chapéu de palha fora de moda e seu sorriso fácil, ele varria as folhas secas e alimentava os pássaros com um zelo incomum. 

Os habitantes desse vilarejo pareciam ter uma característica especial: eles não envelheciam. Estavam todos presos na melhor versão de si mesmos, com os mesmos sonhos, as mesmas paixões, e uma vitalidade que ficou com eles, mesmo depois que o mundo acabou. 

Eu desavisado, atraído pela beleza e tranquilidade do vilarejo, decidi me aproximar para passar uma noite ali. Maravilhado com a simpatia dos moradores e a serenidade do lugar, decidi ficar mais algum tempo. Noites viraram algumas semanas e comecei a notar algo estranho. Ninguém parecia nunca estar doente, ninguém mencionava datas de aniversários ou qualquer referência ao tempo. Intrigado, fui conversar com o padeiro, que me recebeu com um sorriso aberto:

"Ah, meu caro, não se preocupe com esses detalhes. O mundo realmente já acabou, mas a vida nunca foi tão boa!"

Após um momento de choque inicial, decidi ficar ali. Afinal, se o mundo ruim que eu conhecia já não existia mais, por que voltar à sua vida ordinária e limitada?

Acordei assustado, procurando sentir o cheiro do pão, o frescor das folhas voando com o vento, vendo se minhas meias estavam costuradas, mas nada tinha mudado. O que acordou foi só a voz daquele apresentador falando sobre as bombas na Ucrânia, a destruição do povo em Gaza, a retaliação que mata inocentes em Israel, a enchente que assola o Rio Grande do Sul, os filhos assassinando os pais...

Por aqui, na realidade, o mundo já acabou faz tempo...


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