Houve um tempo em que a comida chegava à mesa e a primeira reação era comer. Às vezes, alguém ainda elogiava a aparência do prato, reclamava da quantidade de cebola ou estendia o garfo para experimentar o que o outro havia pedido. Hoje, antes de qualquer movimento, surge o telefone.
É preciso encontrar o melhor ângulo, afastar o copo, ajeitar o guardanapo, verificar a iluminação e pedir que ninguém toque em nada. A fome pode esperar. O prato ainda não está pronto para ser comido porque, antes, precisa cumprir sua função pública: virar conteúdo.
Não há nenhum grande problema em fotografar uma refeição bonita. Também registro momentos, lugares e coisas das quais quero me lembrar. Uma fotografia pode guardar uma memória, dividir uma descoberta ou simplesmente revelar um pouco da beleza encontrada em um dia comum. O problema começa quando deixamos de registrar o que vivemos e passamos a viver principalmente aquilo que pode ser registrado.
Agora tudo parece precisar de uma legenda.
A viagem não começa quando chegamos ao destino, mas quando publicamos a foto da estrada. O exercício precisa aparecer no aplicativo. O presente precisa ser exibido. O aniversário precisa ter provas. O livro precisa ser fotografado, mesmo que jamais seja lido. Até o descanso ganhou a obrigação de parecer interessante.
Aos poucos, a experiência deixa de ser suficiente. Não basta saborear, encontrar, contemplar ou sentir. É preciso mostrar que saboreamos, encontramos, contemplamos e sentimos. E, mais do que mostrar, precisamos torcer para que alguém reaja.
Talvez tenhamos transformado a vida em uma espécie de prestação de contas permanente. Estamos sempre demonstrando que fizemos alguma coisa, fomos a algum lugar, conhecemos alguém, compramos algo ou tivemos um dia melhor do que aquele que realmente tivemos.
E não é necessário condenar as redes sociais para perceber isso. Elas aproximam pessoas, divulgam trabalhos, registram histórias e nos apresentam lugares aos quais talvez nunca chegássemos. O exagero não está na ferramenta. Está na sensação de que um momento só adquire importância depois de publicado.
Existem experiências que perdem um pouco de sua delicadeza quando são imediatamente expostas. Uma conversa inesperada, uma paisagem silenciosa, um gesto de carinho, uma refeição simples preparada por alguém querido. Nem tudo precisa atravessar uma tela para se tornar verdadeiro.
Nem toda comida precisa virar foto. Algumas podem simplesmente esfriar um pouco enquanto a conversa esquenta. Outras podem desaparecer do prato sem deixar qualquer prova além da satisfação de quem estava ali. E está tudo bem.
Talvez ainda seja possível reaprender a viver acontecimentos que não renderão postagem alguma. Fazer algo sem pensar na legenda. Conhecer um lugar sem procurar o ponto mais fotografável. Vestir uma roupa bonita sem produzir uma imagem. Sentar à mesa e começar a comer antes que o queijo endureça e a batata murche.
Guardar certos instantes apenas para nós não significa desperdiçá-los. Pelo contrário. Pode ser uma maneira de devolvê-los à sua finalidade original: serem vividos.
Porque uma vida sem registro pode ser esquecida, mas uma vida transformada inteiramente em conteúdo corre outro risco: ser muito vista e pouco experimentada.

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