Mudar parece uma coisa bonita quando acontece nas frases. A pessoa amadurece, aprende, supera, encontra novos caminhos e segue em frente. Tudo muito organizado, como se cada mudança viesse acompanhada de uma explicação e de uma placa indicando a direção correta.
Na vida, porém, quase nunca acontece assim.
Às vezes, percebemos que mudamos quando uma música que já significou muito toca e não provoca mais nada. Quando voltamos a um lugar do qual sentíamos saudade e descobrimos que ele ficou pequeno. Quando encontramos alguém que fez parte da nossa história e a conversa já não acontece com a mesma naturalidade. Não houve briga, decepção ou despedida. Apenas alguma coisa deixou de estar onde sempre esteve.
É estranho perceber que certas coisas continuam iguais, mas nós já não conseguimos enxergá-las da mesma forma.
Talvez o maior incômodo da mudança esteja justamente nisso. Passamos tanto tempo tentando preservar aquilo que somos que, quando finalmente percebemos que já somos outra pessoa, sentimos como se tivéssemos traído uma versão antiga de nós mesmos.
Aquela pessoa tinha sonhos, certezas, gostos, amigos e uma ideia razoavelmente definida de como seria o futuro. Algumas dessas coisas se realizaram, outras desapareceram no caminho, e muitas perderam a importância antes mesmo que pudéssemos decidir o que fazer com elas.
Um dia você gostava de sair, conversar, conhecer gente nova. Depois começa a preferir o silêncio, a própria casa e a companhia de poucas pessoas. Ou acontece o contrário. Aquilo que parecia suficiente deixa de ser. A rotina começa a incomodar. As opiniões mudam. A paciência diminui para algumas coisas e aumenta para outras. Até os medos mudam de endereço.
O problema é que nem sempre estamos preparados para conhecer essa nova pessoa que aparece no espelho.
Há uma espécie de constrangimento em admitir que já não queremos o que dizíamos querer. Parece incoerência, fraqueza ou falta de personalidade. Então insistimos em hábitos, relações e escolhas que combinavam com quem fomos, mas já não conversam com quem nos tornamos.
Continuamos frequentando lugares dos quais desejamos ir embora. Mantemos conversas que terminaram há muito tempo. Defendemos ideias nas quais já não acreditamos completamente. Fazemos tudo isso porque reconhecer a mudança pode exigir explicações que nem nós sabemos dar.
As pessoas também cobram alguma permanência. Gostam de dizer que você mudou como quem apresenta uma acusação. E talvez tenham razão. Você mudou. Só não significa necessariamente que tenha se tornado melhor ou pior. Significa apenas que o tempo passou por você e deixou marcas.
Nem toda mudança representa crescimento. Algumas são cansaço, proteção, decepção ou simples perda de interesse. Outras acontecem tão devagar que só percebemos quando já não conseguimos voltar. E talvez nem queiramos voltar, embora ainda sintamos saudade.
Esse é outro incômodo difícil de explicar. Podemos sentir saudade de quem fomos sem desejar ser aquela pessoa novamente.
Tenho saudade de algumas versões minhas. Da ingenuidade com que acreditavam em certas coisas, da facilidade com que se encantavam e até dos erros que cometiam sem imaginar as consequências. Mas eu sei que já não caberia nelas. Seria como tentar vestir uma roupa antiga que ainda guardamos por carinho, mesmo sabendo que não serve mais.
Perceber que mudamos também significa admitir que algumas partes da nossa história terminaram sem cerimônia. Não houve uma última vez anunciada, uma despedida adequada ou qualquer aviso. Apenas fizemos alguma coisa pela última vez e seguimos vivendo sem saber.
Talvez seja por isso que mudar incomode tanto. Porque toda mudança carrega uma pequena despedida, e nem sempre sabemos de quem estamos nos despedindo.
Às vezes, daquilo que fomos.
Em outras, daquilo que imaginávamos que ainda seríamos.
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