Vou deixar de ganhar dinheiro com a proibição das bets. E ficarei muito feliz se isso de fato acontecer.
Não sou influenciador e não recebo para divulgar apostas. Sou psicólogo e hoje uma boa parte dos meus pacientes desenvolveram ludopatia. Se menos pessoas precisarem de mim por esse motivo, posso ter uma redução na minha renda. É uma redução que eu gostaria de ver acontecer.
Tenho escutado que quem é contra a proibição das bets é quem está viciado ou quem ganha dinheiro com elas. As empresas, os influenciadores, os que recebem para divulgar aquela promessa de dinheiro fácil.
Não acho que isso explique a posição de todas as pessoas. Mas quero colocar nessa conversa uma situação delicada: eu também recebo dinheiro por um trabalho que existe, em parte, por causa dos estragos das apostas.
Nesse sentido muito específico, eu poderia ser colocado, entre aspas e com bastante cuidado, entre os “beneficiados” financeiramente por esse problema.
E sou amplamente favorável à proibição das bets.
Atendo pessoas que perderam dinheiro, casamento, vínculos familiares e a confiança de quem estava ao lado delas. Pessoas que precisaram de tratamento internadas em clínicas de recuperação. Em alguns casos, a família se junta para pagar as consultas, porque quem precisa de ajuda já não tem condições nem de arcar com o próprio tratamento.
É difícil chamar isso de benefício quando se conhece o sofrimento que chega junto com esse pagamento.
Meu trabalho é ajudar essas pessoas a recuperar a autonomia. E ficaria muito satisfeito se elas não tivessem passado por nada disso, mesmo que isso significasse menos consultas na minha agenda. Minha renda não pode ser o critério para decidir o que considero saudável para a sociedade.
Mas há outro ponto que precisa ser discutido: a ludopatia, a dependência dos jogos de azar, pode existir muito antes de alguém perder tudo.
Quem ganha também pode desenvolver dependência. Quem ganha pouco, quem ganha muito e quem aposta valores pequenos também. O resultado financeiro não é suficiente para dizer se uma pessoa tem controle sobre o jogo.
“Mas eu jogo só cinquenta centavos.”
“É só um real por dia.”
“Eu nem coloco dinheiro, só uso os bônus.”
Essas frases dizem quanto a pessoa aposta. Não dizem o espaço que a aposta passou a ocupar na vida dela.
A pessoa consegue deixar de jogar? Já tentou reduzir e não conseguiu? Fica ansiosa ou irritada quando não pode acessar? Passa o dia esperando a hora de buscar o bônus, girar a roletinha ou receber a aposta grátis? O jogo está tomando o lugar de outras atividades e continua mesmo quando começa a prejudicar sua vida?
Apostar todos os dias, isoladamente, pode até não permitir um diagnóstico. Mas a necessidade de apostar, a perda de controle e o sofrimento associado merecem atenção, mesmo quando os valores parecem insignificantes.
O prejuízo pode aparecer no tempo consumido, na preocupação constante, na dificuldade de estar presente numa conversa. Pode aparecer quando a pessoa está com a família, mas sua atenção continua presa à próxima oportunidade de jogar.
E ganhar dinheiro não elimina esses sinais. Uma sequência de ganhos pode alimentar a confiança de que está tudo sob controle, enquanto a pessoa se envolve cada vez mais.
Não precisamos esperar que alguém perca a casa ou o casamento para reconhecer que precisa de ajuda. Pequenas apostas podem acompanhar um problema que já existe e que pode se agravar.
Também me incomoda ver empresas, influenciadores e clubes de futebol defenderem a continuidade das bets falando do dinheiro que deixariam de receber, sem dar a mesma atenção às consequências para quem aposta e para suas famílias. Quem recebe para divulgar precisa considerar o que está ajudando a promover.
Defendo a proibição das bets porque conheço parte do sofrimento que elas deixam para trás. Sei também que uma proibição precisa de fiscalização e que quem já desenvolveu dependência continuará precisando de tratamento.
Receber para ajudar alguém a reconstruir a vida não me faz desejar que mais vidas sejam destruídas.
Eu preferiria que aquela pessoa ainda tivesse seu dinheiro, seu casamento e sua família. E que, na nossa sessão, pudéssemos conversar sobre os desafios do cotidiano, os relacionamentos e tudo aquilo que ela ainda gostaria de construir.

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