segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Encenações


Já mencionei algumas vezes aqui que a depressão é uma doença mortal, afetando uma parcela significativa da população mundial, muito além do que as pessoas imaginam.

A depressão não faz distinção de idade, raça ou classe social; não importa se alguém aparenta ter tudo para ser feliz ou não possui nada, se tem uma família presente ou enfrenta a solidão. Todos estamos suscetíveis a ela.

Uma das dificuldades cruciais reside na identificação da depressão. Muitas vezes, o próprio indivíduo finge não ter nada, não sentir nada, usando a vida como se fosse uma peça teatral na qual ele é o protagonista.

Ele encena, socialmente, uma vida tumultuada ou repleta de paz, com problemas que parecem resolúveis, ou uma serenidade aparente. E o restante do mundo torna-se apenas a plateia, aguardando os aplausos para o fechamento das cortinas, permitindo-lhe retornar à sua casa, sua cama e suas portas fechadas, onde pode chorar sem razão aparente, atendendo a uma vontade estranha de não ter vontade alguma.

Essas representações são o verdadeiro veneno, uma tentativa de solucionar um problema que mal consegue ser identificado, uma falta de motivação, mesmo cercado por pessoas que ama e que expressam amor. E, quando menos esperamos, tragédias acontecem.

Recentemente, testemunhamos dois cantores extremamente bem-sucedidos, com riqueza, fama, família, milhões de fãs e todos os tipos de bens materiais, tirarem a própria vida, sem motivo aparente. Chris Cornell e Chester Bennington tinham tudo isso e também sofriam de depressão. Portanto, não importava o quanto tinham fora de suas mentes; nada conseguiu impedir que a força dessa doença os levasse à morte.

Consequentemente, não podemos encarar nossos dias como uma produção cinematográfica, encenando mentiras para que as pessoas acreditem que são verdades. De nada adianta fotos sorridentes no Facebook, quando a imagem interior é de pura desolação.

O medo de ser rotulado como 'louco' ou doente é o pior adversário da doença. O preconceito e o bullying complementam essa tragédia, e a ignorância e a falta de respeito jogam mais terra sobre tudo.

Esqueça a plateia; não dê ouvidos àqueles que ainda não compreendem que a depressão e a gripe são dois tipos de doença que necessitam de tratamento, não preste atenção àqueles que podem estar enfrentando isso, mas se esforçam para parecerem fortes, apenas para receber aplausos da sua própria plateia, enquanto, em casa, enfrentam dificuldades para dormir.

Seja o protagonista da sua vida, mas não o diretor de uma peça de teatro sobre ela. Se sentir que precisa de ajuda, procure um profissional e descubra como ser verdadeiramente feliz pelo simples fato de ter recebido o dom da vida

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