segunda-feira, 23 de julho de 2018

Retrospectiva


Por vezes, nos pegamos com uma sensação estranha, com os olhos abertos, olhando para o nada e sem conseguir necessariamente definir no que estávamos pensando.

Talvez seja porque, nesses momentos, nosso cérebro esteja trazendo aos nossos pensamentos momentos do passado. Lembranças de coisas que aconteceram há muito tempo ou ontem mesmo. Lembranças boas ou ruins, ensinamentos, lições, arrependimentos... Uma gama infinita de coisas pelas quais passamos a cada segundo e, por vezes, nem nos damos conta.

Acredito que seria interessante se cada um de nós fizesse isso voluntariamente algumas vezes, mesmo que apenas uma vez por ano, mas tentando resgatar um pouco mais do que as coisas que nos vêm atiçadas por fatos cotidianos, como uma lembrança que volta quando toca uma música, uma saudade que surge ao ouvir uma frase repetida, uma tristeza ao ver uma cena de um filme, etc.

Deveríamos, sem precisar de nada disso, fechar os olhos e tentar voltar à lembrança mais remota, e depois passar pelas lembranças da infância: as brincadeiras, as broncas, os tapas que tomamos e as risadas que demos. Passar pela nossa adolescência e saborear os momentos que depois nos causaram arrependimento; lembrar de tudo que ouvíamos e que, depois de muito tempo, começamos a falar; lembrar dos conselhos não seguidos, das lágrimas derramadas, do sabor de um beijo bom, da alegria das festas, do dia seguinte com ressaca...

Em seguida, começar a lembrar do início da fase adulta: os trabalhos, os chefes, os salários, os gastos, a vontade de ter mais, mas também o medo de ficar sem tempo para aproveitar aquele momento. Recordar os primeiros meses da gravidez, da paternidade, o dia na maternidade, a necessidade do amadurecimento.

Para alguns, continuar a lembrança com a pessoa que construiu boa parte da vida ao lado; para outros, a lembrança dos dias difíceis que antecederam uma separação; para todos, a lembrança das brigas e das discussões, inevitáveis em qualquer relação.

Depois, tirar um momento para lembrar de todas as pessoas que não estão mais por perto, que viraram estrelas no céu e memória no pensamento. Lembrar dos ensinamentos, lamentar por ter perdido chances de aproveitar mais tempo com elas, mas nunca remoer o arrependimento que porventura tenha surgido na hora do adeus.

Após isso tudo, devemos abrir os olhos e exercer a gratidão. Agradecer por tudo que passamos até o dia de hoje: pelas dificuldades que enfrentamos, pelos sorrisos que demos, pelas vitórias que comemoramos, pelas tristezas que choramos. Afinal, tudo isso forma aquilo que somos. Assim, podemos continuar em frente, criando lembranças para serem recordadas no próximo ano, quando fecharmos os olhos e começarmos tudo de novo...

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