segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Conto em Gotas - Parte 2

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2

Depois de tomar um banho muito demorado, ela não se sentia limpa e tinha a impressão que jamais voltaria a se sentir como antes, por mais que a água e o sabonete escorressem pelo seu corpo, ela jamais se livraria daquela sensação.

Ainda imaginando que seria presa, ela foi dormir.

Demorou a pegar no sono e quando conseguiu, só teve pesadelos, com a cara daquele estranho que tanto a fez sofrer, com o sangue dele jorrando no chão, com a cabeça dele explodindo, com mulheres estranhas a agredindo em uma cela pequena.

Quando acordou, estava atrasada para o trabalho, com medo de sair de casa e ainda assustada.

Tomou outro banho na esperança de se sentir limpa. Em vão.

Escondeu a arma em uma lata de biscoitos. Trocou de bolsa, enfiou lá dentro a arma de choque e o Spray de pimenta, colocou sua roupa simples de sempre, respirou e girou a maçaneta da porta.

A rua estava muito mais movimentada naquele horário, mas não parecia anormal e nem diferente.

Foi andando pelo caminho de sempre, sentindo um enorme aperto no coração quando se aproximou da esquina que daria para rua do beco. Diminuiu o passo e aguçou a audição, mas não ouviu nada.

Ao virar a esquina ela viu um movimento maior no beco e um carro de polícia estacionado em frente.

Seu coração quase parou e ela naquele momento sabia que era a mesma Diana do dia anterior e se perguntou:

- Onde está aquela mulher corajosa que salvou a própria vida na noite passada?

Então respirou e com passos mais fortes foi se aproximando do beco. Viu aquela famosa faixa amarela, viu algumas pessoas agachadas, viu sangue, mas não viu o corpo.

Um policial olhou para ela, que retribuiu o olhar firme. Continuou andando, como se não soubesse o que estava acontecendo e nem fosse curiosa para perguntar.

Quando entrou no escritório que trabalhava, viu os olhos da recepcionista arregalados e aliviados ao vê-la.

- Diana! Tentamos te ligar a manhã toda! Ontem um estuprador violento e conhecido da região foi assassinado durante a noite, mas pelas conversas que ouvimos, antes ele teria atacado uma nova vítima. Como você, pra variar, saiu tarde e sozinha, ficamos todas assustadas.

Diana se deu conta que esqueceu completamente seu celular, que estava desligado desde o final da noite anterior, sem bateria e assim continuava, só que na outra bolsa.

- Me desculpa Cacá. Eu realmente me esqueci do telefone. Saí tão cansada daqui que acabei caindo direto no sono, esqueci até de ligar o despertador.

Ao entrar no escritório, ela se sentiu observada por todos e imaginou que até seu chefe o homem mais chato do universo, deu um suspiro de alívio quando a viu.

Sentou-se do lado de Beatriz, a quem ela carinhosamente chamava de Bia.

- Desculpe Bia, perdi a hora. Quase não vim trabalhar.

- Não se preocupe, seu banco de horas está gigante e não aconteceu nada de diferente até agora, exceto pela notícia do estuprador assassinado. Todas ficamos curiosas para saber quem foi o herói que mandou ele para o inferno.

Depois, falando mais baixo e com a voz embargada ela continuou:

- Gostaria que esse herói encontrasse o homem que me violentou há alguns anos...

Diana olhou assustada para a amiga e ia perguntar mais detalhes, quando ouviram os passos inconfundíveis de Altamiro, o dono do escritório e, certamente o homem mais chato do mundo...

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