segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

O poço tem fundo?

Ninguém sabia exatamente a história do poço.

Claro que muitas lendas eram contadas, inventadas e aumentadas, mas parece que ele estava lá desede sempre.

Nunca ninguém se preocupou se a corda era forte ou fraca, comprida demais ou curta, nem se seria preciso trocar o velho balde de metal, já desgastado pelo tempo, mas muito funcional e eficiente.

O poço passou por secas, onde a corda tinha que descer mais e períodos de chuvas poderosas, qaundo era possível pegar a água com bacias apenas colocando os braços na borda do poço.

Mas um coisa todos sabiam, o poço era fundamental para suas vidas era sua água que saciava a sede, que ajudava a preparar os alimentos, que era levada para as casas na hora da limpeza.

O tempo foi passando e cada vez mais pessoas começaram a morar e a visitar aquele lugar e as novas gerações, mais curiosas, sempre perguntavam a seus parentes sobre o poço. Uns diziam que ele era mágico, outros que a água de um rio que passava por baixo dele o abasteia constantemente, outros só achavam que ele era profundo demais, apesar de também acharem estranho uma obra tão antiga chegar assim a um ponto tão profundo.

Um dia, um meininho viu um idoso jogar uma moeda dentro do poço. Esperou o idoso ir embora e se aproximou do poço, apoiou as mãos em sua beirada e fez o maior esforço possível para ver se enxergava a moeda alí jogada, mas não conseguiu nem mesmo enxergar onde começava a linha da água.

Poucos dias depois o meininho curioso viu o idoso saindo da mercearia com um grande embrulho nos braços. Ele se aproximou do idoso e perguntou: O que  Sr. jogou dentro do poço semana passada?
O idoso, paciente, olhou para ele e sorrindo disse: - Eu só tinha aquele níquel e estava com fome, fiz uma oferta ao poço, pedindo ajuda para comprar comida. Como um milagre, assim que cheguei na porta da minha casa, minha nova vizinha me ofereceu um prato de comida e perguntou-me se eu ainda tinha energia para cuidar do seu jardim e me pagaria 5 níqueis por semana, além de suprir minhas duas refeições do dia. O poço me devolveu a moeda que joguei para ele em muito maior quantidade!

A história se espalhou e nos dias que se seguiram, as filas para buscar água do poço começaram a ficar maiores. Todos que iam buscar água, paravam para jogar um níquel, alguns, mais precavidos, jogavam 2, outras, mais gananciosos e mais ricos, jogavam cinco, dez níqueis no poço.

As histórias de sucesso do poço se misturaram com as histórias de fracassso, para uns era sorte, para outros azar e para outros, absolutamente indiferente.

Para outros, foi um chamariz. Ladrões começaram a observar o povo jogado os níqueis no poço e durante à noite descarregavam toda a linha do poço para ver se o balde puxava alguma moeda, mas nada vinha.

Um deles, comprou em outra cidade cem metros de corda! Sorrateiramente trocou a já surrada corda do poço pela nova e soltou o balde com seus cem metros de corda pendurada, mas para seu espanto, a corda toda foi para baixo e a única coisa que voltou com o balde, foi a água.

Veio, então, a maior seca de todos os tempos. A economia entrou em colapso porque a produção foi perdida, a população toda jogava seus níqueis em desespero pedindo chuva para o poço. Ele parecia cada vez mais fundo, tão fundo que se não fosse a nova corda, não conseguiriam a água necessária.

Quando finalmente a água do poço já estava subindo suja, com um pouco de barro e o desespero tomou conta de todos, o mais rico fazendeiro da cidade, conhecido por ser incrédulo, jogou de uma só vez cem moedas(!) no poço. E, naquela noite, chouveu, uma chuva forte, que limpu toda amargura da cidade e durou vários dias.

As pessoas agora agradeciam ao poço por sua bondade e ao fazendeiro por sua generosidade.

Fizeram uma cerimônia para trocar o balde do poço, por um mais novo, maior, brilhante e para que ele tirasse do poço toda água necessária para o sustento da cidade. E o fazendeiro, que ganhou muito com as chuvas e com a vaidade que lhe caiu, encheu o balde níqueis, da boca para fora afim de agradecer a graça alcançada, mas por dentro, esperando que o poço lhe retribuisse novamente com muito mais do que ele havia ganho da primeira vez.

Poucas pessoas se importaram em ver descer naquele bakde niqueis suficientes para empregar homens que jogavam seus únicos níqueis pedindo um emprego sem suesso, crianças que jogavam lá botões enferrujados, tentando enganar o poço para que ele provesse comida, entre tantas outras coisas.

Agora não havia apenas um bandido interessado nos níqueis do poço, havaim vários e junto deles algumas pessoas desesperadas por uma moeda para um pão.

O mais ousado comprou na capital uma roupa estranha, com um cilindro estranho e no meio da noite, sob os olhos famintos e atentos de poucas pessoas, mergulhou de cabeça no poço. Nunca mais foi visto. Mas, diga-se de passagem, os bombeiros da cidade nem se deram ao trabalho de tentar tirar ele de lá. O balde ainda subia com água e ainda era possível fazer um pedido, já quase nunca atendido, com um níquel.

Aquele idoso, que jogou o primeiro níquel no poço, jogou mais alguns durante meses, em uma das vezes, pedindo saúde para sempre. Este pedido nao foi atendido e em uma tarde de Dezembro, sua vizinha, que era sua patroa, foi nervosa bater a sua porta, pois haviam folhas soltas em seu lndo jardim. Sem resposta, ela entrou na casa dele e sentiu o forte odor de um homem morto.

Em seu velório, ela fez um discurso, onde disse que se lembrava perfeitamente do primeiro prato de comida que dera à seu vizinho. Que ele o comeu frio, porque assim que ela saiu para oferecer a comida e o emprego para ele, o viu fechando a porta para sair de casa com sua pequena moeda na mão e ela acompanhou com os olhos ele indo e voltando em diração ao poço, lembra que achou estranho ele não ter levado nenhum copo para pegar a água, mas como esperava que ele fosse aceitar o trabalho, não se preocupou se ele estava com sede ou não.

Quantas moedas não seriam perdidas se ela tivesse chamado seu nome antes dele deixar seu últio níquel no poço... 

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