segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Jardim

Nem sempre vejo o que está à frente dos meus olhos.
Às vezes, estou apenas olhando para dentro da minha alma.
Eu não questiono a minha existência,
mas acredito que viveria melhor em um tempo passado.

Sinto que apenas vagueio por aqui,
perdido nesse mundo moderno.
Mas sigo em frente, mesmo com as mãos atadas,
mesmo com o rosto marcado e ferido.

Tentarei caminhar pelas sombras,
atravessar o desconhecido que me atrai,
até chegar ao jardim,
ao jardim de pedra.

Sob o jardim de pedras, tudo estará em paz.
E então, não estarei mais sozinho.
Caminharemos de mãos dadas, sem correntes,
com o rosto limpo, como o da criança que um dia fui.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A lógica que a paixão pelo engajamento ignora

 A paixão é o combustível do futebol, mas também é o que mais distorce o olhar sobre ele.

Nos dias de hoje, a emoção não se contenta em torcer.
Ela precisa ter razão, precisa provar que o erro não foi erro, foi conspiração.
E quando a paixão encontra as redes sociais, nasce um tipo novo de torcedor: o que prefere o engajamento à verdade.

O clássico entre São Paulo e Palmeiras é o retrato perfeito dessa confusão.
Em noventa minutos de jogo, os dois lados tiveram motivos de sobra para reclamar, apesar do mais óbvio, na minha modesta opinião, ser o pênalti não marcado a favor do Tricolor.

O Palmeiras pediu um pênalti logo no início do jogo, alegou falta em Vítor Roque na origem do segundo gol e questionou uma possível expulsão não aplicada antes do pênalti reclamado pelo São Paulo.
Três lances seguidos que poderiam, ou não, ter mudado o rumo da partida ainda no primeiro tempo ou no início do segundo.

Mas aqui está o ponto que a lógica revela e a paixão ignora.
Se o árbitro quisesse beneficiar o Palmeiras, o momento ideal para isso seria quando o jogo ainda estava sob seu controle.
Com o placar em 0 a 0, bastava marcar o pênalti, que geraria menos discussão.
Ou, antes do São Paulo ampliar, marcar a falta na origem.
E se estivesse desesperado para cumprir o “combinado”, expulsar o jogador do São Paulo logo no início do segundo tempo.
Qualquer desses três lances marcados possivelmente mudaria a direção da partida.

Mas o árbitro não marcou nenhum.
E o time que supostamente seria beneficiado entrou no segundo tempo perdendo por dois gols de diferença.
Essa sequência sozinha já desmonta a tese de manipulação.

Não faz sentido acreditar que um juiz disposto a “entregar” um resultado deixaria o placar escapar até um ponto em que o sucesso se tornaria improvável.
A lógica é simples: quanto maior a vantagem do adversário, menor o controle sobre o desfecho.

Em dois campeonatos, houve apenas uma virada semelhante antes dessa: a vitória do Corinthians contra o Criciúma em 2024, quando o visitante entrou no segundo tempo perdendo por 2 a 0 e virou o jogo.
Um manipulador não age quando o acaso domina.
Age antes.

O que aconteceu depois foi o que o futebol sempre oferece: o improvável.
Um time reagiu, o outro se desorganizou, a maré mudou de lado e a virada aconteceu.
E, como acontece em toda virada, surgiram teorias, raiva e narrativas prontas para viralizar.

O problema é que as pessoas não buscam mais entender o jogo.
Buscam audiência.
A indignação rende mais clique que a ponderação.
A dúvida é mais compartilhável que o fato.
E o que era para ser uma análise vira um espetáculo de achismos.

A lógica continua ali, intacta, esperando ser percebida.
Mas a paixão pelo engajamento fala mais alto.
E enquanto ela gritar, o futebol continuará sendo julgado não pelos fatos, mas pelo barulho que eles provocam.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Nostalgia

 De vez em quando, sem aviso, somos atravessados por uma lembrança.

Pode ser o cheiro de um perfume antigo, uma música que toca ao acaso, uma foto esquecida no fundo de uma gaveta. E, de repente, é como se o tempo se dobrasse. Estamos ali de novo, com as mesmas pessoas, as mesmas cores, o mesmo sentimento de antes.

A nostalgia tem esse poder silencioso de nos transportar. Ela não precisa de lógica, só de espaço para existir.
É um tipo de saudade que não dói o bastante para entristecer, mas também não alegra o suficiente para sorrirmos sem pensar.
É doce e melancólica ao mesmo tempo. Um abraço apertado do que já não volta, mas que ainda mora dentro de nós.

Talvez o fascínio pela nostalgia venha justamente desse desejo humano de revisitar o passado como quem visita uma antiga casa. A gente sabe que nada é igual, mas sente vontade de entrar, olhar cada cômodo, perceber como o tempo mudou tudo e, mesmo assim, manteve algo essencial ali.

O problema é quando a nostalgia deixa de ser visita e vira moradia. Quando passamos a comparar o presente com o que já foi, como se o passado fosse um lugar melhor. A mente, às vezes, idealiza o que viveu para suportar o que sente hoje. Mas o passado não era perfeito. Ele só parece mais leve porque já o superamos.

Viver com nostalgia é lembrar sem se perder. É compreender que aquilo que nos marcou não precisa ser repetido para continuar vivo.
As pessoas que passaram, as fases que terminaram, as versões de nós que deixamos pelo caminho, todas deixaram algo importante, e é isso que deve permanecer.

Talvez a nostalgia exista para nos lembrar de que o tempo não destrói, ele transforma.
E cada lembrança é uma forma de continuidade, não de perda.
Revisitar o passado pode curar, se for com gentileza.

O importante é não usar a nostalgia como fuga do presente, e sim como ponte entre o que fomos e o que ainda podemos ser.

Quando ela vier, permita-se sentir. Mas depois, volte.
O agora também quer fazer parte das suas boas lembranças.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Será que conseguiríamos viver hoje com a tecnologia do passado?

Imagine acordar e, em vez de pegar o celular, ter que levantar da cama para bater o despertador analógico, aquele que fazia “trrrim!” e quase te fazia odiar as manhãs. Depois, nada de checar notificações. O máximo que você teria seria o jornal amassado na porta de casa, e se ele não viesse, paciência, o mundo teria que esperar até amanhã para te contar o que aconteceu hoje.

Fazer café ainda era uma arte. Sem cápsulas, sem cronômetro digital, sem playlist “Café e Boas Vibrações”. E se o telefone tocasse, você precisava correr, literalmente, porque ele ficava preso na parede, com um fio que te lembrava que a liberdade ainda não era um aplicativo.

Agora tente imaginar mandar uma mensagem para alguém. Você teria que escrever uma carta. E não dava para apagar. Se errasse, começava de novo. O “enviar” dependia de um carteiro de humor variável e de um sistema de correios que achava que “prazo” era apenas uma sugestão.

No trabalho, nada de planilhas automáticas, e-mails instantâneos ou IA para revisar textos. Tudo feito à mão, com papel carbono, caneta e o medo constante de derrubar café no relatório.

E as fotos? Nada de tirar cinquenta para escolher uma. Você clicava uma vez e rezava para que ninguém piscasse. Só descobriria o resultado dias depois, quando buscasse o filme revelado. Era uma mistura de emoção e tragédia anunciada.

Mas talvez o mais curioso seja pensar que, mesmo com toda essa lentidão, as pessoas conversavam mais, se olhavam mais, riam sem precisar gravar e viviam sem precisar postar. Havia menos praticidade, mas de alguma forma, mais presença.

Talvez o problema não seja a tecnologia, e sim o quanto a gente se acostumou com a pressa. Porque, se por um lado seria difícil viver hoje com a tecnologia do passado, por outro, o passado talvez soubesse viver melhor sem tanta tecnologia. 

Síndrome de Stendhal

A Síndrome de Stendhal é uma condição psicológica rara, mas fascinante, caracterizada por uma reação emocional intensa e quase avassaladora ...