quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A lógica que a paixão pelo engajamento ignora

 A paixão é o combustível do futebol, mas também é o que mais distorce o olhar sobre ele.

Nos dias de hoje, a emoção não se contenta em torcer.
Ela precisa ter razão, precisa provar que o erro não foi erro, foi conspiração.
E quando a paixão encontra as redes sociais, nasce um tipo novo de torcedor: o que prefere o engajamento à verdade.

O clássico entre São Paulo e Palmeiras é o retrato perfeito dessa confusão.
Em noventa minutos de jogo, os dois lados tiveram motivos de sobra para reclamar, apesar do mais óbvio, na minha modesta opinião, ser o pênalti não marcado a favor do Tricolor.

O Palmeiras pediu um pênalti logo no início do jogo, alegou falta em Vítor Roque na origem do segundo gol e questionou uma possível expulsão não aplicada antes do pênalti reclamado pelo São Paulo.
Três lances seguidos que poderiam, ou não, ter mudado o rumo da partida ainda no primeiro tempo ou no início do segundo.

Mas aqui está o ponto que a lógica revela e a paixão ignora.
Se o árbitro quisesse beneficiar o Palmeiras, o momento ideal para isso seria quando o jogo ainda estava sob seu controle.
Com o placar em 0 a 0, bastava marcar o pênalti, que geraria menos discussão.
Ou, antes do São Paulo ampliar, marcar a falta na origem.
E se estivesse desesperado para cumprir o “combinado”, expulsar o jogador do São Paulo logo no início do segundo tempo.
Qualquer desses três lances marcados possivelmente mudaria a direção da partida.

Mas o árbitro não marcou nenhum.
E o time que supostamente seria beneficiado entrou no segundo tempo perdendo por dois gols de diferença.
Essa sequência sozinha já desmonta a tese de manipulação.

Não faz sentido acreditar que um juiz disposto a “entregar” um resultado deixaria o placar escapar até um ponto em que o sucesso se tornaria improvável.
A lógica é simples: quanto maior a vantagem do adversário, menor o controle sobre o desfecho.

Em dois campeonatos, houve apenas uma virada semelhante antes dessa: a vitória do Corinthians contra o Criciúma em 2024, quando o visitante entrou no segundo tempo perdendo por 2 a 0 e virou o jogo.
Um manipulador não age quando o acaso domina.
Age antes.

O que aconteceu depois foi o que o futebol sempre oferece: o improvável.
Um time reagiu, o outro se desorganizou, a maré mudou de lado e a virada aconteceu.
E, como acontece em toda virada, surgiram teorias, raiva e narrativas prontas para viralizar.

O problema é que as pessoas não buscam mais entender o jogo.
Buscam audiência.
A indignação rende mais clique que a ponderação.
A dúvida é mais compartilhável que o fato.
E o que era para ser uma análise vira um espetáculo de achismos.

A lógica continua ali, intacta, esperando ser percebida.
Mas a paixão pelo engajamento fala mais alto.
E enquanto ela gritar, o futebol continuará sendo julgado não pelos fatos, mas pelo barulho que eles provocam.

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